segunda-feira, 4 de julho de 2011

Um pouco de cabotinismo

Bom, à guisa de contribuição para o melhor entendimento do cenário, republico aqui uma coluna que escrevi no Correio Braziliense três anos atrás. De certa forma, ela explica um pouco essa matéria da Veja desta semana sobre as obras do Ministério dos Transportes, o PR, o pito da presidente Dilma e tal.


Nas Entrelinhas, Correio Braziliense - 09/01/2008


As veias abertas do mensalão

O perfil do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu publicado na edição da revista Piauí mandada às bancas no último fim de semana é um manancial, um mangue. Dele, pode-se tirar quase tudo. Pela primeira vez, por exemplo, um petista graúdo veio à público e não só parou de negar, mas admitiu, confirmou e ainda teceu explicações sobre o mensalão. Às vezes, metendo-se a mão na lama, sai caranguejo grande. 

Ao defender-se da acusação de ser chefe do esquema, Dirceu sempre argumentou que tal hipótese era nula, por impossível. Se o esquema não existia, como poderia ele ser chefe? Agora, a coisa mudou. E não sou eu quem diz. Para tanto, reproduzo as aspas do personagem em questão.

“Esse pessoal (referia-se às alas mais à esquerda do PT) é assim… Chegava para o Delúbio e falava: `Delúbio, preciso de um milhão´. Como é que alguém vai arrumar esse dinheiro assim, de uma hora para outra? O pobre do Delúbio tinha de ir aos empresários, conseguir doações. Aí, estoura omensalão e esse pessoal vem dizer que o Delúbio era o homem da mala. O que não dizem é que a mala era para eles.”

Bom, há aí uma explicação de gente de dentro sobre o que o mensalão era para o PT. Mas essa é uma perspectiva simples e rasa. A confirmação de Dirceu permite outra, mais profunda, sobre a máquina política brasileira, suas engrenagens e conseqüências.

A firma 

Talvez pelo fato de o Brasil ser um país subdesenvolvido, a maior empresa nacional sempre foi o governo. Ainda mais depois que a Constituição de 1988 delegou ao Estado uma imensa gama de serviços públicos universais e gratuitos. Para atender à clientela tão vasta e a preço tão barato, a firma precisa de um cabedal extenso de fornecedores. Tem-se, pois, que o presidente da República administra a organização econômica que mais compra na economia. Toda compra realiza um pagamento, todo pagamento tem um recebedor.

A administração do governo, como sabemos, não é puramente gerencial. O chefe a reparte em departamentos. Entrega cada um deles a alguém de sua confiança, a quem chama de ministro, responsável por fazer pagamentos, muitos e bilionários, a fornecedores privados capazes de transformar em ação pública as políticas emanadas da empresa.

Pois bem, o que aconteceu depois da redemocratização? Nenhum grupo político conseguiu chegar ao poder sendo amplamente majoritário. Precisou unir-se a outras forças com o intuito de governar. E precisou entregar a essas forças cada um daqueles departamentos, com seus pagamentos milionários.

Chego a meu ponto: os grupos políticos pós-redemocratização cresceram e sobreviveram corrompendo os pagamentos da maior empresa nacional, justamente aquela cuja multiplicidade de comando e fragilidade de controle, somados à torrente de recursos a transitar continuamente, a tornavam verdadeira fonte inesgotável de financiamento eleitoral.

Nova administração 

Tudo mudou em 1º de janeiro de 2003. Incomodados com os pífios resultados do modelo de gestão anterior, os donos da empresa elegeram um novo grupo de administradores — o PT. Estes, mudaram um pouco o esquema. Assumiram os departamentos. E dominaram todos aqueles pagamentos com que os grupos políticos se sustentavam.

O problema é que o PT, tal qual seus antecessores, também não venceu a eleição de forma amplamente majoritária. E, dado que o Brasil, como de resto todo o mundo civilizado, dividiu o poder em três instâncias autônomas e interdependentes, precisava das outras forças políticas para governar, notadamente no Congresso Nacional. Eis o mensalão. Eram pagamentos, ou doações, como prefere Dirceu, arrecadados fora da máquina pública para irrigar a vida partidária, pagando-lhes despesas e viabilizando sua existência.

O arranjo ruiu quando alguns personagens previram uma catástrofe. Se os pagamentos fossem interrompidos num ano eleitoral, só o PT teria dinheiro em caixa. Elegeria bancadas formidáveis no Congresso e, pela primeira vez, uma força política orgânica estaria em condições de exercer o poder sozinha. Ou, pelo menos, com ampla preponderância sobre as demais. Roberto Jefferson foi uma espécie de profeta desse acontecimento. Por isso, denunciou o esquema.

A julgar pelas reações posteriores, a sociedade brasileira condenou o mensalão. De certa forma, trata-se de uma espécie de declaração de pluripartidarismo. O governo do PT viu-se obrigado a montar a empresa segundo a velha distribuição de departamentos, com seus muitos pagamentos e diversos interesses em jogo.

E, reeleita, preparou um grande e bilionário pacote de obras públicas, a que batizou com pompa de Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

terça-feira, 31 de maio de 2011

Só pra testar um negócio no Facebook...

"Revolução no tribunal", Ugo Braga
(23/05/2008 - 16:03)


Encontro João Caldas no corredor do Senado e o homem está elétrico. Fala com paixão, gesticula, esbraveja. “Já sabes?”, pergunta, ansioso pela própria resposta. “Sei não”, respondo, envergonhado da minha própria ignorância. “Como não!? Está para estourar uma revolução”, provoca. E segue. “O Tribunal Superior Eleitoral vai fazer a reforma política. Vai mudar tudo”, informa, um instante antes de estourar numa confiante gargalhada. Falei de João Caldas com intimidade que talvez o leitor não desfrute. Então, peço licença para apresentá-lo. É alagoano, gosta de falar alto e há quem o condene — foi citado, sem a posterior confirmação, como integrante do malfadado esquema dos sanguessugas. Pois bem, João obteve 2,5% dos votos válidos na chapa proporcional nas eleições de 2006. Mas não foi eleito. Depois de duas legislaturas seguidas na Câmara, não conseguiu sequer a suplência. Foi reprovado no ponto de corte. Ou seja, o PL, então partido dele, não atingiu o coeficiente eleitoral em Alagoas. Assim, todos os candidatos proporcionais daquela sigla acabaram alijados da distribuição das vagas no Parlamento. “Mas como? E o tribunal pode fazer o que nem o próprio Congresso quis?”, provoco, referindo-me, claro, às mudanças nas regras políticas e eleitorais que os partidos renegaram no ano passado. Ele me puxa pelo braço e fala no meu ouvido: “Negócio é que entrei com um processo contra o coeficiente eleitoral. O tribunal vai derrubar. Quando ele acabar, muda tudo”. Puxou de novo e repetiu: “Muda tudo, percebeste?” Enxerguei nos olhos de João o fervor dos revolucionários. Está mesmo empenhado em fazer a Corte superior cortar a cabeça da Maria Antonieta jurídica. Por ora, o tal processo está em processo de vista. Deve voltar à votação em semanas. O placar está em 3 x 2 contra a tese do alagoano. Mas resta o voto do ministro Joaquim Barbosa, que andou se declarando favorável e provavelmente empatará a peleja. Por fim, o voto de minerva caberá ao presidente do tribunal, ministro Ayres Britto, autor de estudo pelo fim do quociente. Ventos a favor no horizonte da causa, portanto. Coeficiente eleitoral é um detalhe medonho. E o diabo, todos sabemos, mora nos detalhes. Para quem não lembra, trata-se daquela conta de chegada feita a cada eleição. O tribunal eleitoral divide o número de votos válidos pela quantidade de cadeiras a que o estado tem direito. O quociente daí resultante firma uma linha de corte. O partido ou coligação que não atingir esse patamar, fica fora da divisão de vagas, mesmo que um de seus candidatos seja o mais votado da disputa. Em última instância, a conta e seu poder impeditivo podem ser entendidas como uma cláusula de barreira, um filtro capaz de exigir um desempenho mínimo dos partidos disputantes do poder político, o que seria bom. Mas há outra perspectiva. O cientista político José Antônio Giusti Tavares, professor do Iuperj e das maiores autoridades em direito eleitoral do país, em conversas sobre o assunto, costuma lembrar da gênese do coeficiente. Ele data de 1932, no código formulado pelo advogado Joaquim Francisco de Assis Brasil. É, pois, eivado do espírito da Revolução de 30 e teria por ambição inicial dificultar a eleição de candidatos do Partido Comunista, fundado em 1922 e, aquela altura, dissidente dos antigos tenentistas que ascendiam ao poder, com os quais Assis Brasil alinhava-se. Mais de 80 anos depois, por seu turno, o quociente tem produzido toda sorte de injustiças e vilanias. Já houve um candidato no Espírito Santo — o diplomata José Carlos da Fonseca Jr. — que não conseguiu se eleger mesmo tendo sido o candidato mais votado para a Câmara dos Deputados em 1998. O eleitorado dele não se fez representar no Congresso. O coeficiente também está por trás de todas as alianças esdrúxulas nas eleições de outubro próximo. E das negociatas que estão por trás delas. Se o TSE armar a guilhotina sobre a antiga norma, os partidos perderão muitos dos motivos que os levam atualmente a coligarem-se. Daí, de fato teremos eleições mais próximas da verdadeira vontade popular, agremiações mais fortes e, por tabela, instituições mais sólidas para inibir a corrupção do Estado.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Sarau

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O título de 87 merece mesmo ser dividido


Por Pedro Lazera -- Blog do Torcedor
"É justo.
O flamengo de 87 era um timaço. Tinha zico, andrade, renato, zinho e outros.
E esse time aí venceu adversarios dificílimos: São Paulo, Inter, Grêmio, Atlético.
Por isso que eu acho que a torcida do flamengo tem todo direito de dizer que ganhou o campeonato brasileiro dentro do campo.
Mas em que campo?
O campo da falta de palavra? Nao é isso que acontece quando voce assina um contrato e descumpre?
O regulamento estava lá. Assinado por todos.
Um regulamento exdrúxulo, concordo. Afinal, em que outro campeonato o vice-campeão do ano interior ficaria de fora da elite?
Nós já vimos muitos regulamentos toscos, e nem por isso ninguém descumpriu.
Em 2000, o Malutrom poderia ter sido o campeão brasileiro. O Vasco, de Eurico Miranda, jogou a final contra o São Caetano, que era de outro módulo.
Nós mesmo já jogamos um campeonato pernambucano com três turnos. Ganhamos os três, mas pelo regulamento, teríamos que jogar uma final. Jogamos.
O Inter poderia se recusar a jogar contra o Mazembe. É justo um time que enfrenta uma Libertadores difícil ter as mesmas chances que um time do Congo?
Será que estamos falando do campo da esperteza, do trambique, da malandragem?
Ou seria o campo da covardia? O próprio zico é um amarelão de primeira. Ou você esqueceu aquele pênalti que ele perdeu na Copa? Ou quando ele abandonou o flamengo numa época difícil, já como dirigente?
No dia da final, o Sport estava no campo. Esse sim, um campo de verdade. E o “timaço” com zico, zinho, renato e leandro nem sequer apareceu.
E nao apareceu por que? Soberba? Medo? Nao interessa.
O fato é que o Sport disputou um campeonato muito mais dificil que o flamengo. Com Inter de Limeira, Guarani, Bangu e um adversario que supera todos os outros do módulo verde juntos: a banda podre do futebol brasileiro.
Enfrentamos acordos escusos, a manipulação, os interesses corporativos, a ganância. E nesse jogo, meu amigo, são 11 contra 11 milhões de dólares.
Já perdemos muitas vezes para os interesses dessa banda podre. Em 82, contra o próprio flamengo, quando anularam nosso gol da classificação num lance absurdo. Ou na primeira final da Copa do Brasil, contra o Grêmio, com mais um erro “fantasma”.
Mas em 87 não. Em 87 nós ganhamos.
E diferente de uma decisão de 180 minutos, enfrentamos uma decisão ainda mais árdua, cansativa, que durou vários e vários anos.
Até que a justiça brasileira finalmente soprou o apito final, considerando a senteça como trânsito em julgado. A prova definitiva, irrefutável de que éramos os verdadeiros e únicos campeões.
Mais do que um título, o campeonato de 1987 é um símbolo de luta.
É a prova de que existe sim esperança contra quem engana, distorce, manipula e mente. Contra um sistema que tenta empurrar goela abaixo o que bem entende. O que é mais rentável. O que é mais fácil.
Essa estrela que a gente carrega no peito com tanto orgulho merece sim ser dividida.
Não com o flamengo e sua tentativa patética de contrariar os valores e leis de uma nação.
Mas sim, com você.
Você que respeita as leis e é honesto.
Você que trabalha todo dia com dignidade.
Você que tem valores.
Você que acredita que pode vencer qualquer adversário, mesmo que ele seja maior, tenha mais dinheiro e mais poder.
Mais do que rubro-negra, a vitória do Sport é verde e amarela.
Sempre foi, sempre vai ser e para sempre será."

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O ovo da serpente dentro de um misto quente

Tenho um amigo aqui em Brasília, jornalista respeitável e renomado, que empreende cruzada contra as concessões nos aeroportos. Chama-se Leandro Fortes, trabalha na revista Carta Capital e expôs intenções e motivos no Facebook. Quer cancelar as atuais e trocá-las por outras, mais, segundo diz, honestas.


Preenche o argumento com o exemplo do misto quente. Embora não seja exatamente uma iguaria, a guloseima custa até R$ 5 em lanchonetes instaladas nas casas aeronáuticas brasileiras. É um roubo, um assalto, uma patifaria. Como funcionam em espaço público -- dado que os saguões pertencem à Infraero, uma estatal monopolista --, esses pequenos negócios devem ser varridos para baixo do tapete e substituídos por outros que cobrem o devido e justo preço pelo misto quente. 


Li o Leandro, gosto dele, mas aquilo ali me soou estranho. Ele termina o escrito mais ou menos assim: O Lula deu acesso às classes C e D às viagens de avião, agora a Dilma tem que providenciar a marmita. 


Lembro de um antigamente em que o PT -- sim, Leandro o é, mesmo que não saiba ou admita -- questionava a organização social em que se media a importância das pessoas pela quantidade e qualidade dos bens de consumo que ela era capaz de adquirir. 


Agora, anos depois, eles se jactam do presidente por ele ter feito com que mais pessoas possam adquirir mais e melhores bens de consumo, inclusive as viagens de avião. Ótimo, eu, que no espectro ideológico sou o contrário do petista, também conto pontos favoráveis ao Lula por isso. 


O ponto é bem outro. Se concentra na forma como exercer o poder de governo e no respeito à liberdade. 


Sim, pois se é assim benquisto que o governo aja sobre as concessões e seus preços, por que não cancelar, estrapolando o argumento, a concessão da TV Globo, que, segundo os petistas, oferece um mau serviço aos brasileiros? Chávez, na Venezuela -- amigo do peito do PT, por sinal --, tentou fazer o mesmo com o maior canal de TV, depois de congelar preços na caneta e atropelar, também na caneta, o direito de propriedade sobre empresas em vários ramos de negócios. 


Tudo bem, o PT não é Chávez, longe disso, o que também concordo. Mas, pensando por outro lado, tenho uma amiga oriunda da classe D, atualmente no que se chama de C, que, graças ao Lula, viajou aos EUA, Miami, afim de comprar uns produtos. Soube que lá é mais barato, juntou uma grana, descolou o visto e embarcou. Trouxe umas camisas, relógios e perfumes pra vender. A mim, se declarou "besta" de como as coisas são baratas lá. Falava, claro, de bens de consumo como vestes, eletrodomésticos e eletrônicos, cosméticos. 


Bom, os EUA não são a China. A mão de obra por lá é cara, não tem como a gente dizer que o produto é barato por que foi montado por uma criança a salário de dólar/mês. O que diabo terão feito os americanos, então? Assim como Leandro exemplificou o misto quente, recorro ao iPad, o aparelho de alta tecnologia, cujo preço no Brasil é o maior do mundo. 


A razão entre o abismo no preço de varejo do aparelho dos EUA para o Brasil são os impostos. Que cá, ao contrário de lá, financiam o sistema universal de saúde, o sistema público de educação, as empresas estatais, o governo gigantesco e crescente, com seus funcionários caros e ineficientes. 


Agora, esqueça, por favor, o iPad. Tome os outros itens. Roupas, eletromésticos, comida e bebida, enfim, itens que as pessoas comuns realmente precisam pra viver. Aqui eles são mais caros que lá. Paga-se mais para levar o dia-dia com dignidade num país emergente do que num país rico. E não é por causa da ganância dos empreendedores privados, meus amigos, é por causa dos impostos. 


Ou, dito da maneira mais correta do ponto de vista da política fiscal, por causa dos gastos do governo. Reduza-os e teremos, enfim, o paraíso.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

E num é que...

Sabe o que é bom de escrever ficção, ainda mais sem a pressão do contrato com uma editora?


O tempo.


Planejei, por exemplo, o capítulo 2 dessa história aí em baixo para domingo passado. Até escrevi. Mas não gostei. Joguei fora. Acabei de escrever de novo. Também não gostei. Joguei fora.


Não, não se assustem. A história vai ficar muito boa no final. Pelo menos eu espero. Tô morrendo de curiosidade de saber como é que termina.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Capítulo 1


Começando pelo final

-- Se eu puxar esse gatilho, mato meu filho. Não, não, um pai não mata o próprio filho. Como é que cheguei a esse ponto, meus Deus? Não, não, não posso rogar a Deus numa situação dessas. O que é que eu faço, o que é que eu faço? 

Então o homem, de cabelos brancos e barba mal feita, 65 anos, suspira profundamente e enxuga a testa com as costas da mão esquerda. Assim, consegue controlar um naco do pavor que lhe sobe das entranhas. O suor é frio como o cano do revólver em sua mão, um .38 desses com cano curto. Dá pra ver que jamais foi usado. Só tem três balas no tambor. Ele não tem ideia de onde teriam ido parar as outras três. -- Mas três são suficientes, pensa.

 Está sentado no chão da garagem, com uma das pernas flexionadas e a outra esticada. Há na rua o silêncio típico das tragédias. Não se ouvem vizinhos, nem pedintes, ou carros. O relógio marca quatro da tarde e até o vendedor de picolé, que passa ali diariamente àquela hora berrando “olha o sorvete! olha o sorvete!” parece ter se mancomunado com o cenário.

Deitado, inerte e distante não mais do que um palmo, jaz desmaiado um rapaz de 23 anos. Está bem vestido, mas a barba há meses por fazer e o cabelo desgrenhado funcionam como nota dissonante. Da mão esquerda sem ação mas ainda pulsante, paira a fumaça de um cigarro de marca, Carlton. Na direita, o polegar e o indicador seguram sem muita firmeza um isqueiro azul escuro desses que se compra por um trocado em qualquer bodega.

Mesmo trêmula, a mão que segura o revólver de repente recebe o comando e, usando do mínimo ao indicador, agarra com força o cabo de madeira. Ao mesmo tempo, o polegar se move para, num movimento trôpego, puxar o gatilho até que ele seja travado no mecanismo de disparo. 

Tudo o que separa a modorra de uma tarde de sexta-feira da tragédia é o átimo de aflição em que o cérebro daquele homem vai se deparar em alguns instantes. Alguém mais civilizado certamente refletiria sobre a vida e a morte, o patético humano e a existência do divino, a civilização, o futuro, as ações e seus desdobramentos. 

Mas não ele. Não ali, nem com aquele garoto à sua frente. Tudo o que lhe vinha à mente era “foda-se, foda-se esse filho da puta que me atormenta o coração, foda-se aquela louca da minha mulher, foda-se tudo”. Babava e chorada ao mesmo tempo. As lágrimas se misturavam à saliva e desabavam, elásticas e melancólicas, do queixo quadrado, mal encaixado pela falta da dentadura, que caíra pouco antes no chão. 

O coração acelera. O homem respira fundo e agora segura o revólver com as duas mãos. O tremor lhe balança o corpo inteiro. Sente principalmente atrás da cabeça, na nuca, e descendo pela coluna até o quadril. Sua mente funciona em ritmo frenético. Já não raciocina. 

Veem-lhe imagens da mãe chorando no velório, da primeira menina que beijou, de uma pelada no campo de barro quando criança. Elas se sucedem aos borbotões, como um filme em modo acelerado, sem som algum. Até que o tormento irrompe pelo corpo, atravessa os braços, se concentra nos punhos e o indicador da mão direita recebe a ordem fatal: inicia a pressão sobre o gatilho que vai estourar os miolos do pobre diabo deitado ali à frente. 

Nesse exato instante, a porta da garagem abre atrás do homem. Um jovem de 24 anos, envergando um terno bem cortado, pasta de couro segura na mão esquerda, cabelo bem penteado e barba impecável, entra apressado. Depara-se com o cenário e, estatelado, exclama: Pai!?

domingo, 5 de dezembro de 2010

de 2009 para 2011

Li, acabei de ler o blog de Carol. Pra quem não sabe, Carol é minha mais velha. Carrega num dedo mais talento para a literatura do que eu no corpo inteiro nesta e em outras encarnações.

Tanto que a lendo, me deu vontade de escrever. Veja bem, só os grandes escritores conseguem isso, incutir no leitor a vontade de escrever.

Pois foi o que se deu comigo, lendo Carol. Ainda mais agora, que os blogs tornaram-se uma espécie de betamax da internet. Em bom português, virou mesmo um pergaminho digital, como eu, profeticamente, anunciei na inauguração desta sala.

Aviso desde já que a partir de hoje retomo este .2009. com a mesma idéia original. Tem uns cinco ou seis leitores que passam aqui toda semana -- pelo menos é o que me diz o Google, num relatório de frequencia que me manda. Pois bem, a estas boas almas, peço que divulguem o que gostarem.

Volto oficialmente a lançar minhas garrafas no mar cibernético, na esperança de que, depois de cruzar o oceano do tempo, alguém no futuro encontre pelo menos um motivo para refletir e, no final, chegar à conclusão inevitável: como eram patéticos o seres humanos daquele tempo.

Ah, o blog de Carol: http://sonhodeagua.blogspot.com

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

GENIAL (pelo menos pra quem gosta de liberdade e democracia)

sábado, 3 de julho de 2010

Choramos a lágrima inevitável

Desde que te formaste, pouco formosa, me ganhaste o amor automático, o amor BUROCRÁTICO, sem paixão. O amor quase obrigatório, incompleto.

Procurei,então, algo de mim em ti. Algo dos campos de pelada, das pelotas feitas de meia, da terra e da poeira que se impregnam nos pés de MENINO em suas primeiras trocas de carícia com a bola.

Procurei um pouco da ginga que aqui aprendemos cedo. Um pouco do bailado corporal que insinua o movimento e engana o adversário. Procurei o DRIBLE, a finta, o rabo de vaca, o banho de cuia; procurei a caneta, o elástico, a folha seca.

Procurei, enfim, algo capaz de lembrar, ao menos minimamente, que representas uma criação original. Representas, para o mundo, o caso de um povo que elevou um esporte ao mais alto nível da ARTE.

Não achando nada disso, busquei ao menos o espírito. A AMBIÇÃO DO GOL, o destemor, a ousadia. Busquei tateando com as mãos uma luz que os olhos não enxergavam por mais que tentassem.

Ainda que não te reconhecesse e te amasse pela metade, te escutei esbravejar e se gabar de tuas vitórias e feitos. Vi-te bradar novos tempos e fantasiar-te com outros costumes e crenças — passaste a se vangloriar do garbo com que te defendias e da agudez do teu CONTRA-ATAQUE.

Assim, partiste em mais uma aventura mundo afora. Atraíste todas as atenções apenas para revelar aos povos que já não carregavas a MAGIA e a glória das nossas antigas gerações.

Ainda chorando a lágrima inevitável, te amo com o mesmo amor incompleto e obrigatório, porém agora esperançoso ao te ver prenhe para, daqui a quatro anos, aqui mesmo, na nossa casa, apresentares ao mundo novos e dignos representantes do que gloriosamente entendo por FUTEBOL BRASILEIRO.