Ainda não contei do batizado do meu filho, Chicão (esse bonitão aí do lado). Já faz uns três ou quatro domingos.
O batismo é um ritual da Igreja Católica. Hoje, janeiro de 2009, ela tem dois mil anos. Aparentemente, goza de boa saúde. Rica é, não há dúvida. Deve chegar aí a 2209 sem maiores problemas.
Mas não com o formato atual. Há algumas décadas, missas eram rezadas em latim, com o sacerdote de costas para seu rebanho. Onde já se viu? Ele virou para a platéia e passou a falar na língua dela. Sabe-se lá o que fará daqui a duzentos anos.
Mas falava do batismo. Como não sei quão mudada estará a nossa santa igreja, penso que cabe descrevê-lo aqui, para o querido Futurista. Pra mim, é o ritual mais engraçado dos católicos. Calma, Futurista, já me explico.
Antes preciso esclarecer que creio em Deus com a força de mil leões. Não me dou é com as religiões, que fique bem claro.
Bom, o batismo é dirigido às crianças. Geralmente, elas o recebem numa idade que não têm sequer consciência da própria existência, quando mais de um ser transcendental e superior, criador do céu e da terra.
É o caso de Chicão. Batizamo-lo quando tinha cinco meses de vida. Não fala, não anda, nem mesmo se sustenta sentado ou consegue manter a saliva dentro da boca. Por isso mesmo, carrega consigo pureza e delicadeza ímpares.
Quando nasceu, ele precisou passar uma noite na UTI infantil. Para amadurecer o pulmão, explicou o médico, assim, genericamente. Como a mãe dele se recuperava do parto, coube a mim embalá-lo nas primeiras e desconfortáveis horas de vida. Observei-o e vi claramente a vida se fiando bela, como no poema de João Cabral.
No dia seguinte, o recebemos enrolado em lençóis brancos e azuis. Ainda inchado, estava com os olhos fechados. As mãozinhas mal cabiam em si próprias. Só ligeiros grunhidos partiam de seus lábios, já famintos do seio materno. Ali, naquele momento, aquela criaturazinha me fazia sentir emoções poderosas. Ternura, paz, compaixão e entrega total. Era capaz de dar minha vida para poupar a dele se tal sacrifício se fizesse necessário.
Os minutos, horas, dias, semanas e meses seguintes me propiciaram o testemunho do crescimento. Os grunhidos iniciais ganharam volume, se uniram uns aos outros e formaram sílabas de uma língua incompreensível. Os olhos adquiriram viço, um brilho curioso pelas imagens do mundo que se descortinava aos poucos. As mãos cresceram e já eram capazes até de segurar pequenos objetos, ainda que sem controle sobre eles.
Até que chegamos à igreja. Por inflexibilidade eclesiástica, marcamos o evento para as 10h30. Era um problema, pois sair de casa com criança pequena é uma obra de engenharia. Mais que isso, o horário caía bem no exato instante em que Chicão faz o último lanche antes do almoço. Na correria, o lanche ficou pra trás.
Éramos apenas nós, os padrinhos e o padre. Mais meus dois cunhados e suas mulheres e filhos. Além do sacristão e de um fotógrafo que apareceu do nada. E de um outro sujeito sem função aparente, com a barba por fazer e uma calça surrada, carregando uma sacola preta de plástico.
Pois bem, o padre chegou atrasado. Pediu desculpas e mandou que sentássemos, nós, os pais, junto com os padrinhos e o bebê, no primeiro banco em frente ao altar. Os demais podiam ficar onde bem quisessem.
O padre vestiu a batina, fez o pelo sinal, em nome do pai etc e tal. Começou a explicar o que fazíamos ali. Disse que o batismo é o primeiro passo que alguém dá na direção de Deus, que é preciso manter aquela criança perto da igreja, segundo os mandamentos de Cristo e por aí vai. Chicão dava um cochilo até ali.
Por ordem do padre, ora sentávamos ora levantávamos durante a ladainha. Até que ele disse com todas as letras que Chicão é um pecador. -- Essa criança precisa expiar o pecado que carrega desde o nascimento, falou, solene.
-- Oxente!, pensei. Mas esse menino nem palavrão diz, eu vi ele nascer, embalei ele, me apaixonei imediatamente, como é que pode ser pecador?
Por essas coincidências inacreditáveis e transcedentais, foi só ser xingado que Chicão acordou. E acordou mal humorado. Começou a gemer. Primeiro baixinho. Depois mais alto.
O padre seguiu. -- Vocês renunciam a Satanás?
-- Pelamordedeus, seu padre! Tomei logo um susto. Que negócio é esse de Satanás?
Naquele instante, Chicão explodiu. Primeiro chorou, irritado. Depois passou a berrar.
-- Renunciamos, renunciamos, gritava Stael, minha mulher, balançando o rebento, pra ver se ele calava. Que nada.
Eu vou ungir o menino, avisou o padre. E foi logo pegando um óleo pra passar na testa da criança. Borrou o dedo no vidrinho e desenhou uma cruz na alva fronte do meu menino. Foi ele chegar perto e Chicão soltar a plenos pulmões o maior buá que já deu na vida.
Stael me fitou com um olhar ligeiro e preocupado. É um olhar típico de mãe. Pude ler na mente dela: -- Será que Francisco (ela só o chama pelo nome, jamais pelo apelido) está possuído?
O cara sem função e meio mal trapilho estava sentado exatamente atrás de nós. -- Será o prior de alguma seita satânica?, especulava eu, cheio de preconceito, influenciado pelo climão da cerimônia.
Meio mal educado, eu virava constantemente e lançava sobre o invasor olhares inquisitoriais. Ele me retribuía com um pequeno e enigmático sorriso. -- Sai pra lá, demônio, volta pro inferno, traste!
-- Agora vamos levá-lo ao presbitério, ordenou o sacerdote.
Lá fomos nós, com o menino suado, se remexendo, gemendo, babando como um corcel furioso e reclamando. -- Passa ele pra madrinha, sussurou o chefe dos trabalhos, num tom coloquial, como se tivesse dado uma pausa na linguagem paroquial. E lá se foi Chicão, para os braços da madrinha.
-- Eu te batizo em nome do pai, do filho... E ia jogando água na cabeça do pequeno. Foi o bastante. O pobre chorou como nunca. Até se debateu. Stael me puxou num canto. -- Estás vendo como ele estava precisando mesmo ser batizado? Dei de ombros.
Mais meia dúzia de palavras e finalmente "podem ir em paz e que o Senhor vos acompanhe" (engraçado os padres usarem a segunda pessoal do plural nessa hora).
Renunciado o azucrim, perdoado o pequeno pecador e livres da ritualística, Stael pôde enfim puxar o peito fora da camisa e deitar Chicão a mamá-lo. Fiat lux. Ele pára de chorar e se farta às goladas. Até sorri, secreta e solitariamente, enquanto mama.
O aliado do canhoto levanta, anda na minha direção e bota a mão na sacola de plástico. Eu tremo. -- É agora, valha-me Deus!
Aí, o suspeitoso interlocutor repete aquele sorrisinho e puxa dos alfarrábios uns saquinhos com mel de abelha. Três por um real. -- Quer levar não, patrão, pras crianças? Stael me cutuca. -- Eita, agora que eu lembrei dele. Vende esse melzinho na frente da escola da Bia! E abre um sorriso.
-- Tome dois reais, meu velho, e me dê seis desses melzinhos aí.
E todos viveram felizes para sempre.
PS - O batizado me custou R$ 90, entregues antecipadamente, em dinheiro, na mão do padre. Eu num disse que as arcas católicas andam cheias?
Imóvel vendido por governador foi pago por confecção da cunha de Cachoeira,
diz jornalO GloboOs cheques que pagaram a venda da casa do governador de
Goiá...
39 minutos atrás




2 comentários:
Vou aproveitar que o meu fechamento já acabou para mandar um comentário. :-)
Um cara com sorriso de perseguidor que vive de vender melzinho e acompanhar batizados só pode ser um mega-personagem. Adorei essa história.
Bjo!
R$ 90 paus???? Sem nota???? E o pecador é Chicão???? Pelamordedeus!!!!!
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