Nenhuma morte é intranscendente. E toda ela carrega uma dramaticidade que nos ofende e nos humilha, ao jogar-nos nos mais fundo poço da ignorância.
Falo isso, meu caro Futurista, porque acabo de saber de um assassinato. Regi, a gerente aqui de casa, me conta que Mauro, um primo muito querido dela, tombou sem vida depois de tomar quatro tiros. Ela fala baixinho e segura as lágrimas, embora não consiga esconder a tristeza.
Regi, como eu, é uma migrante. Nasceu e se criou na cidade de Codó, no Maranhão. É o interior do estado mais pobre de um país muito pobre. Então imagine você do que estamos falando.
Quatro anos atrás, aos 24 anos, ela cansou de lutar contra um inimigo invisível e poderoso, que lhe dificultava a vida e impedia o progresso de seu torrão natal. Deixou duas filhas pequenas aos cuidados da mãe e partiu em direção à Brasília, onde uma prima mais aventureira, Cleide, já estava há alguns meses.
Cleide lhe relatava histórias animadoras de conforto e dignidade -- para ela, significado da combinação de duas outras palavras: trabalho e renda. Era uma luz. E Regi entrou no túnel.
Mauro, não. Irmão mais novo de Cleide, ficou em Codó. Morava com a mãe e ajudava a tomar conta da filha da irmã-migrante, uma menina esperta, hoje com seis anos. Aos 23 anos, era um rapaz alegre e festeiro, chamado de Painho pela sobrinha. Seu passatempo predileto era jogar sinuca num bar da rua vizinha.
Na segunda-feira, 19 de janeiro de 2009, a sobrinha lhe gritou. -- Fulano está te chamando aqui na frente, Painho. Mauro foi. Ele saiu. A menina entrou. De dentro da pequena casa, ela e a avó, mãe de Mauro, ouviram quatro disparos, precedidos de nenhum diálogo. A menina voltou correndo para a porta da frente. Já encontrou o tio caído, em seu último suspiro. Atirou-se sobre ele. -- Painho, Painho, alguém me ajude!
Augusto dos Anjos tem um verso tristemente genial a respeito.
É a Morte -- esta carnívora assanhada --, Serpente má de língua envenenada. Que tudo o que acha no caminho, come...
Faminta e atra mulher que, a primeiro de janeiro, sai para assassinar o mundo inteiro, e o mundo inteiro não lhe mata a fome!
Por envolver a sobrinha, a morte de Mauro ganha contornos brutais. Uma criança jamais deveria ser exposta aos instintos animalescos que habitam o ser humano.
Painho, soube-se depois, foi morto porque vencera diversas vezes um conhecido da sinuca, o tal Fulano. Como jogavam apostando dinheiro, formou-se uma dívida acumulada de mil reais. Num ambiente de muita pobreza, tal dívida dá ao credor uma espécie de dominação legítima
sobre o devedor. Fulano resolveu se libertar com um revólver.
Revólver é uma arma de fogo. Serve no meu tempo para a mesma finalidade da pistola de laser que imaginamos vocês usam no seu. O nosso é uma peça de ferro fundido, alimentada com cápsulas em forma de ogiva. O gatilho dispara com um movimento do dedo indicador. Uma vez acionado, ele movimenta mecanicamente um pequeno instrumento parecido com um martelo. Que atinge a parte de trás da cápsula, a bala, onde é aglomerada uma pequena quantidade de pólvora.A pólvora explode e lança a ogiva -- feita de chumbo, com calibre de 0,38 polegada -- a uma velocidade altíssima na direção do alvo. É letal e requer certa habilidade.
Hoje em dia, até mesmo portar a arma é proibido. Mas qualquer um pode comprar um revólver no mercado negro por algo como trezentos reais. Um terço do que Fulano devia a Mauro, portanto.
O caso evolui. Cleide, cá em Brasília, cai de cama, adoecida pelo desespero. Sua filha, lá em Codó, não fala outra coisa senão "se eu não tivesse chamado Painho, ele ainda estaria vivo". As mães de uma e de outra choram sem parar. Regi, que mora conosco, sai em socorro da prima, numa cidade próxima a Brasília (Cleide está sozinha em casa porque o marido, Jair, foi à Bahia enterrar um irmão dele, assassinado não sei em que circunstâncias).
Lá em Codó, os amigos de Mauro ficam sabendo que Fulano não fugiu. Matou o credor, saiu andando e trancou-se em casa. Em visita de condolências, ouvem-se juras de vingança à mãe do falecido, que a família inteira chama de Mãezinha.
Um dos furiosos vai à casa de Fulano e pergunta por ele. -- Não está, foi pra sinuca, avisam. Perfeito. O Vingador se esconde ali por perto. Quando, horas depois, Fulano volta da sinuca, o Vingador sai do esconderijo e repete exatamente os acontecimentos da véspera: sem trocar palavra, puxa o revólver e dispara quatro tiros. Fulano tomba, morto, na porta de casa. O Vingador sai andando e se tranca em sua própria casa.
A família, entre chocada e amedrontada, telefona para dar as notícias. O assassinato de Fulano em nada ajudou a filha de Cleide, que continua repetindo para si mesma, em voz alta, "se eu não tivesse chamado Painho, ele ainda estaria vivo". Também não aplacou a dor da mãe, da tia, da irmã, nem da prima. -- A vingança é uma reação vil, penso comigo mesmo. Mas não ouso dizer isso a Regi.
O relato, meu caro Futurista, desnuda o cotidiano de pessoas pobres. Hoje em dia, tirar a vida de alguém custa muito pouco. Mas, embora os ricos até matem mais, só os pobres assassinam. O crime é punido com 20 anos de prisão, motivo pelo qual nossas cadeias andam entupidas de pobres diabos e carentes de outros vilões mais abastados, que massacram, exploram, corrompem, pilham e estupram sem disparar uma única bala.
Regi, num suspiro, termina a conversa comigo proferindo uma espécie de voto: Deus queira que isso num vire uma rixa.
Amém, minha querida, amém.




1 comentários:
História semelhante à de uma antiga funcionária aqui de casa, só que em vez de bala, o primo dela foi morto a golpes de um facão que, segundo ela, "torou o cangote".
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