
Coisa besta é o futebol. Veja só, se duzentos anos atrás um sujeito resolvesse mandar uma carta para mim, tal esporte sequer existiria. Então acho lícito supor que daqui a duzentos anos, ele não mais existirá. Terá sido sobrepujado, abandonado, condenado à extinção. Daí meu interesse em tratar do assunto aqui.
O fato concreto e inquestionável é que hoje, janeiro de 2009, o futebol é rei. Governa costumes, movimenta dinheiros e povoa mentes. Isso na pobreza, na miséria, no luxo, e não só aqui, no quente e animado país em que vivo, mas em cada recanto do planeta.
E o que vem a ser esse estrondoso sucesso esportivo-cultural?
Em resumo, é uma disputa entre dois grupos. Cada um com onze integrantes. Eles são dispostos num terreno de 100 metros de cumprimento por 50 metros de largura. O padrão é que o terreno seja plano e gramado. Temos, portanto, um retângulo verde. Ao seu redor são construídas arquibancadas de concreto.
O jogo é jogado (perdão pelo pleonasmo) com os pés. Uma bola feita de couro legítimo é posta na cancha.
Em cada extremidade é fincada uma baliza de metal pintada de branco. Cada um dos grupos deve defender uma baliza e atacar a outra. Ganha quem conseguir fazer a bola entrar na baliza adversária mais vezes durante 90 minutos, divididos em dois tempos de 45.
Dos 22 jogadores, apenas dois, um de cada grupo, é autorizado a tocar a bola com as mãos. Mas a autorização só vale dentro de uma área determinada, próxima às balizas. A ele chamamos "goleiro", por ser o cara que fica no gol (gol tanto pode ser o ato de fazer a bola entrar na baliza quanto a denominação da própria baliza). Os outros 20 passam todo o tempo correndo de um lado a outro, chutando a pelota pra cá e pra lá.
Cada grupo de onze usa seu próprio uniforme, com as mesmas cores e um emblema (a imagem lá de cima identifica o Sport Club do Recife, para o qual torço devotamente) que identifica o time -- exceto o goleiro, que usa uma roupa totalmente diferente dos demais, embora com o mesmo emblema de seu time.
Esse padrão se multiplica nas arquibancadas. Os torcedores -- e são milhares a cada jogo! --costumam vestir-se tal qual os jogadores dos seus times (ninguém usa roupas iguais as do goleiro).
Embora não participem diretamente do jogo, os torcedores gritam, berra, urram, reclamam e, assim, encorajam os seus, desencorajam os adversários ou o contrário, dependendo de uma série infinita de fatores que são absolutamente inexplicáveis e completamente irracionais.
Não há qualquer motivo específico que leve uma pessoa a torcer por um grupo e não por outro. As vezes é influência do pai. As vezes é por que durante a infância do torcedor determinado time estava vencendo muitas partidas. Ou porque alguém que o torcedor admira torce por tal e tal escrete. Enfim, são muitas e variadas as possibilidades.
Uma coisa, porém, é inflexível: depois de escolher um time, não se muda mais. A sociedade mal vê os vira-casacas. E também quem torce por mais de um time. Desses, diz-se faltar personalidade. Daquele, diz-se faltar caráter.
Hoje em dia, os jogos acontecem a cada domingo. E dominam quase que completamente as conversas do fim de semana, desde o sábado até mais ou menos a terça-feira. Em geral, mulheres não gostam de futebol (já já explico o porquê). Portanto, este é um relato referente ao universo do gênero masculino.
E por que isso? Bom, a explicação mais bacana que já vi vem do falecido astronomo Carl Sagan. Ele argumenta que a espécie humana chegou até aqui depois de milhares de anos de evolução. Da gênese até mais ou menos dez mil anos atrás, os grupos, nômades, se dividiam com os machos caçando e patrulhando e as fêmeas coletando alimentos.
Pois bem, nas suas tarefas grupais, os machos corriam, saltavam, venciam obstáculos, numa trama conjunta para sobrepujar a caça ou os grupos rivais. Era uma disputa coletiva, cujo sucesso dependia de força e preparo físico, habilidade e inteligência. Mais ou menos como as partidas de futebol.
Com o desenvolvimento da agricultura, o comportamento mud0u. Mas, diz Sagan, os grupos evoluíram por milhares de anos selecionando os melhores genes dos caçadores. Temos pouquísimo tempo, do ponto de vista evolucionário, de vida quieta, fincada num canto.
O gosto pelo esporte, pois, está entranhando nas células masculinas. Assistir a uma partida de futebol (ou de basquete, se você estiver nos Estados Unidos) é saciar um desejo ancestral, referente ao surgimento da nossa espécie.
Pensando bem, como é que vocês aí do futuro foram deixar isso acabar? Vocês são loucos?




3 comentários:
Sensacional!!!
Parabéns, o que te mata é torcer pelo Sport Recife.
Tem uma coisa boa se o futebol acabar. É aquele chiqueiro da ilha ser demolido
Estás vendo, Futurista, eu num disse que não há racionalidade nesse negócio de futebol?
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