Vivemos bovinamente. Iludidos, mas bovinamente. Não temos a menor idéia do propósito de estarmos aqui. No planeta, digo. Acordamos, levantamos, escovamos os dentes, vamos trabalhar. Voltamos pra casa. Dormimos. E repetimos tudo. Mas pra quê? Eis a grande e insuperável interrogação da espécie humana desde sempre.
Perdoe-me pela introdução algo pessimista, mas a história que vou contar a demanda.
Recife, fevereiro de 2009. Alguns dias atrás, portanto. Creche mantida pela prefeitura num bairro dos mais pobres da cidade. Portão de entrada, 7h30. Uma mulher jovem, nem negra nem branca, morena, vestida apenas de uma bermuda surrada e uma camiseta de malha no mesmo estado, com um par de chinelas de borracha a calçar-lhe os pés, se aproxima a passos rápidos. Carrega no colo um menino. De pele pouco mais escura que a dela, ele se veste de forma semelhante. Há remelas nos olhos. E um fio de catarro pende-lhe do nariz. Deve ter mais de um ano de idade. Perto de dois. Já dentro do território da creche, no portão, ela larga o pequeno de forma abrupta. Vira-se e dá o primeiro passo rumo ao destino. Ao que é chamada pela atendente.
-- Mamãe, espera aí, grita a funcionária pública. -- Ele quer te dar um beijo.
Ela continua andando. Mas responde. -- Beijo um caralho. Eu tô aqui apressada e esse porra fica de frescura.
De mão dada à servente, o pequeno remelento entra na creche sem beijo de despedida, sem afeto, sem cuidado ou atenção.
Admito que minha vontade é correr atrás da mulher. Pegá-la pelo braço. Perguntar se é louca ou o quê. Mas se é verdade que a fome tem uma saúde de ferro nos bairros miseráveis do Recife, também o é que a pobreza é cheia de razão. Mesmo que a interpelasse com a indignação dos justos e advogasse em defesa de carinho para um filho, eu ouviria mil desaforos, todos muito bem fundamentados.
Em vez disso, prefiro tirar algo do pessoal da creche. Como sou parente de uma colega deles, falam sem muita censura. -- Ih, isso aí é o de menos, doutor, diverte-se um deles. -- O que mais tem aqui é menino mexido pelos pais, pelos padrastos (mexido é como eles se referem ao abuso sexual sofrido pelas crianças). E agora deu para essas meninas aqui da favela terem filho, que é pra poder pegar mais bolsa-família.
Bolsa-família é um benefício social do governo. Toda família pobre do país o recebe a fundo perdido. A idéia é que com o dinheiro saiam da miséria e não passem fome. Mas há quem o use para financiar a compra de bebidas e drogas. Cada criança ou adolescente de até 17 anos rende um valor a mais à família beneficiária. Daí o artifício de gerar crianças. Elas engordam a mesada oficial recebida pela mãe.
Ao testemunhar o alvorecer da geração sem carinho, percebi o quanto somos, como espécie, um rebanho perdido na imensidão do universo. E babei na gravata a mesma baba bovina e elástica dos ruminantes.




2 comentários:
Será que os futuristas estarão melhores do que nós nesse quesito?
É caro Hugo, a vida é dura. Aí, aqui, em todo lugar.
Vou virar freguesa, gostei do blog! beijinhos.
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