Tanto o frevo quanto o maracatu são manifestações culturais tipicamente pernambucanas. Só há lá? Não, há em outros estados. Mas são raios irradiados a partir da estrela-mãe.
Um e outro designam ritmos. Ao que se sabe, o primeiro nasceu em 1907. Tem 102 anos, portanto. Existirá em 2209? Sim, claro, por que não?
Voltando ao assunto. No início do século passado, o carnaval era bem mais pudico. E se desenvolvia sob patente conflito social -- a escravatura havia sido abolida há menos de três décadas.
Algumas famílias mais abastadas contratavam negros capoeiristas para lhes acompanharem nas brincadeiras como seguranças. Os capoeiras trabalhavam gingando ao redor do que seriam embriões dos atuais blocos e troças. A velocidade e a cadência de seus movimentos se fundiram com a execução das marchas e polcas pelas bandas de metais que costumavam animar a folia.
Nasceu assim o passo, como é chamada a dança do frevo (diz-se Fulano faz o passo muito bem. É o mesmo que fulano dança frevo muito bem. Ou até Fulano freva muito bem). Por tabela, o passista, dançarino de frevo (acima).
Pois sim, com a dança acelerando a música e sendo por ela cadenciada, a imagem formava o cenário de um grupo evoluindo em marcha agitada, ritmada, mas aparentemente caótica. Ao avistá-lo, o populacho começou a dizer que o povo vinha fervendo pelas ruas, ou frevendo no português pobre da ralé recifense. Como se estava frevendo, só podia ser o frevo, ora pois! Até a sombrinha carregada pelos capoeiras para proteger as sinhazinhas do inclemente sol pernambucano acabou tragado para a dança.
Posteriormente, a música se cristalizou como ritmo marcado por caixas de percussão adornadas por metais. E se desdobrou em frevo-canção (bastante lento), frevo de bloco (um pouco mais rápido que o canção) e frevo de rua (acelerado, ligeiro e animado como coceira). É este terceiro tipo que reúne mais de um milhão de foliões no centro do Recife todo sábado de Zé Pereira, durante o desfile do Bloco Carnavalesco Misto Galo da Madrugada.
Já o maracatu é outra história. Tem de dois tipos. O de baque virado, ou nação, e o de baque solto, ou rural.
O de baque virado, mais tradicional no Recife e arredores, remonta a corte dos reis negros do Congo trazidos para o Brasil como escravos. Daí a designação de maracatu nação. Cada um deles é formado apenas e tão somente por integrantes dos terreiros de candomblé da cidade. Cada qual com seu orixá protetor. Há o porta-estandarte, o rei e a rainha (abaixo), as damas do paço, a carregar as calungas (pequenas bonecas negras trajadas como madames da corte), duques, duquesas, príncipes, princesas e até o embaixador. Têm forte caráter religioso. A música é
entoada com o acompanhamento apenas de instrumentos de percussão. O ritmo é muito peculiar, contagiante e convidativo à dança.

Essas explicações me foram dadas quando fui escrever uma reportagem a respeito, uns 15 anos atrás. Minha instrutora foi dona Elda Viana, veterana rainha do Nação Porto Rico, um dos mais vitoriosos do carnaval recifense. Ela era também mãe de santo de um terreiro oferecido a Oxossi no bairro do Pina, zona sul da cidade. Não sei se ela ainda é viva. Se não for, uma de suas filhas, princesas da corte e filhas de santo na época, a sucederam tanto no maracatu quanto no terreiro, como ela mesma me adiantou.
Não sei ao certo quando ele apareceu. Mas é fato que trata-se de uma forma de resistência cultural. Escravizado, tirado de sua terra e recém-liberto no país estrangeiro, o negro encontrou no carnaval uma forma de reverenciar seus reis e rainhas, sob a benção dos deuses africanos.
O maracatu de baque solto, ou rural, contém também uma corte com rei, rainha e cortesãos. Tem batucada como o primo da cidade, mas diferente dele, conta com metais, geralmente um naipe pequeno de tubas e trombones. O canto é entoado pelo mestre e repetido em coro pelos
integrantes. E a parte mais vistosa de sua apresentação não é a corte em si, mas os caboclos de lança, com suas enormes e coloridas fantasias (abaixo).

Eram esses caboclos que estavam "frevando" junto com passistas na sala de desembarque do Aeroporto Internacional dos Guararapes no dia em que cheguei no Recife. A mistura é bonita para o turista. Mas um nativo a enxerga como o filhote de jumento com tatu-peba.
Ah, antes que eu esqueça: caboclinho e papangu são outras duas manifestações culturais do carnaval pernambucano. Mas não posso explicá-las aqui por 1) ignorância e 2) bom senso, o post já está grande demais.
Dívida paga, seu Rico?





1 comentários:
Dívida muito bem paga, diga-se de passagem. Adorei o texto!!!
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