sexta-feira, 20 de março de 2009

Ninguém resiste a um falo

De férias no Recife, fui a Brennand. Francisco, o artista. Não Ricardo, o colecionador. Veja bem, é meio embaraçoso admitir, mas não há quem resista aquela imensa coleção de pirocas.


Sim, as há. O próprio autor já falou em entrevista que sua temática é eminentemente erótica. Esculpe Netuno em cerâmica e sua cabeça é uma glande imensa e indecorosa. Bela, mas glande, pra sempre glande. Arrisca um Ulisses e sai lá um brilhante, grosso e curto falo. Ulisses, é certo. Mas falo. Pra sempre falo.



Muito já se escreveu e com erudição a respeito de Brennand. Por isso vou me ater a um estalo que tive durante a visita. Uma constatação testada com Tomás, grande advogado, um primo e amigo querido, que me acompanhava no templo da Várzea, e sobre a qual obtive eufórica concordância.


Dos artistas plásticos brasileiros vivos, Francisco Brennand é, com larga dianteria, o mais original, de obra mais vasta e com mais prestígio interno e externo. Tal não se discute. Mas falo do escultor! Que irrompe da multidão a partir do material com que trabalha, a cerâmica.


É uma substância dura, lisa e fria, feita a partir do cozimento do barro. A usamos para revestir paredes e assentar pisos. Daí por que a julgamos imensamente resistente. Exageramos na crença a ponto de supor secretamente que as esculturas de Brennand resistirão ao sol, à chuva e até aos tempos, De forma que mesmo daqui a duzentos anos elas existirão sem qualquer arranhão e se mostrarão sem pudores ao expectador. Ao contrário dos gregos e italianos com seu frágeis mármores renascentistas hiperrealistas.


Como toda obra de arte desde o início dos tempos, as de Brennand servem à ornamentação. De salas, salões, jardins, pórticos, paredes, praças, muros. E são caríssimas.


Mas não é isso que queria falar.


Meu ponto é o erotismo e não tenho medo de sugerir certa pederastia — havia mesmo um renomado psiquiatra brasileiro chamado José Ângelo Gaiarsa que previu a bissexualidade como tendência natural do ser humano. 


Mas também não é isso que quero falar.



No templo-oficina de Brennand (acima) há as amplas galerias dedicadas à escultura, mas há também o salão dos desenhos e pinturas. É onde se despe o escultor e se mostra o artista puro, brincante da estética a ponto de não se definir em nenhuma linha, escola ou estilo. A nudez feminina é recorrente nesta como não é naquela.


Chego, finalmente, ao meu achado: Brennand pinta borrões de mulheres sem qualquer pretensão à nitidez ou à exatidão. A não ser em determinado ponto do corpo, um milímetro ou até menos do que isso. E não, não me refiro às partes íntimas. Pode ser o canto da boca. Ou a curva do seio. Parte do joelho. Uma onda no cabelo. 


O fato é que posto a metro e meio daquela figura inexata, por vezes desconexa, ainda que inequivocamente feminina, o observador masculino tem a libido firmemente desperta.


Eis a contradição fundamental de Francisco Brennand. É um escultor originalíssimo e um pintor mediano. Mas é a pintura que revela aquilo que na escultura ele mesmo chama de ovo primordial: o artista guarda consigo a expressão mínima e fundamental do desejo sexual humano. 


Daí o legado de Eros ter lhe encharcado como tema. E, talvez por isso, mesmo o mais convicto dos heterossexuais masculinos não consiga tirar os olhos, com admiração e luxúria, daquela grande coleção de glandes e corpos cavernosos expostas em seu jardim.


Ou, como resumiu Tomazinho: -- É, dá mesmo uma vontade de fuder do caralho...

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