Publiquei esse texto originalmente na coluna Entrelinhas, do Correio Braziliense, no dia 18 de agosto do ano passado.
E o que ele está fazendo aqui?, vocês hão de me perguntar. Eu hei de responder: sei lá!
Eu chorei com o Eduardo Santos. Você não? Eduardo Santos é aquele judoca brasileiro. Chegou desacreditado à Olimpíada. Venceu a primeira, a segunda, ganhou moral, mas perdeu a terceira. Foi à repescagem, saiu vitorioso de novo e por pouco, muito pouco mesmo, não pegou a medalha de bronze. Depois, aos prantos, pediu desculpas ao pai e à mãe em cadeia nacional de TV. Sentia vergonha pela derrota. Naquelas lágrimas, que encharcaram a tela como chuva digna do quinto ato do Rigoletto, vi refletida boa parte da cultura política brasileira. E me explico.
A medalha de bronze renderia a Eduardo um prêmio em dinheiro de R$ 20 mil. A família dele é pobre. O dinheiro, pois, ajudaria a pagar umas dívidas e a financiar algumas melhorias no sobrado onde moram. Daí ter pedido desculpas aos pais. Não à nação, aos técnicos, dirigentes, a quem torceu por ele. Não, o interesse real imediato era a reforma no imóvel da família. Nada de glória olímpica e nome na história. Ele enfrentava o chinês e pensava nos tijolos. Derrubava o italiano e ganhava o cimento. Até que a casa caiu.
Ali, lutando judô nas Olimpíadas, não estava o cidadão Eduardo. Estava todo aquele brasileiro que empreende algo na busca por sobrevivência e felicidade. E vê suas potencialidades serem minadas pela presença de um Estado grande, lento, opressor, corrupto e faminto, a servir-se furtivamente do esforço alheio.
O Embrião
Bom, vou fundamentar o argumento valendo-me de uma idéia bem construída pelo astrônomo Carl Sagan (1934-1996), no livro Bilhões e bilhões (Companhia das Letras, 287 páginas). Ele tenta explicar o fascínio do ser humano, sobretudo do gênero masculino, pelos esportes. E constrói uma bela figura de linguagem para tanto.
A família humana, diz Sagan, tem vários milhões de anos. A espécie Homo sapiens, centenas de milhares de anos. Portanto, na esmagadora maioria da experiência humana sobre a Terra, os homens se desenvolveram caçando — as mulheres eram coletoras de alimentos. Eles corriam, lutavam, pulavam, sozinhos ou em grupo, para poder comer. A seleção natural primou por aqueles que melhor desempenhavam tais tarefas.
Para o cientista, o gosto pelos esportes está nos nossos genes, não no nosso cérebro. Os 10 mil anos de agricultura seriam insuficientes para apagar da carga genética atributos adquiridos num período de 10 a 100 vezes maior de experimentação.
O feto
Na era tecnológica, os esportes são transmitidos pela TV. E, dada a predisposição genética, criam automaticamente um público cativo de homens, responsáveis pelo provimento financeiro da família. Postado na poltrona diante de uma televisão com 22 sujeitos correndo e tramando para subjugar a caça, sugere Carl Sagan, o homem satisfaz necessidades primitivas, das quais sequer tem consciência.
Forja-se um alvo amplo para a oferta de produtos. Daí a aliança entre esportes e publicidade ser tão profunda e movimentar tanto dinheiro em todo o mundo. As empresas buscam associar a própria imagem a determinadas modalidades, competições e até a atletas. A propensão a consumir seus bens e serviços será tanto maior quanto mais sucesso tenha seu “patrocinado”.
O monstro
No Brasil, porém, a natureza paternalista da nação deforma a corrente de causa e efeito. O judô de Eduardo Santos serve de bom exemplo. É patrocinado pela Infraero, uma estatal monopolista. Quer dizer, seus serviços serão consumidos mesmo que ela não faça qualquer publicidade. Mesmo assim, a companhia despendeu R$ 10 milhões nos últimos quatro anos para associar sua imagem à da Seleção brasileira.
E se não era para vender serviços, para que a fortuna em marketing esportivo? Respondo: para atenuar a má impressão e até fazer com que esqueçamos das muitas e milionárias denúncias de corrupção em que a Infraero se envolveu nos últimos tempos. O mesmo se pode dizer da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) em relação à natação.
A despeito dos milhões da Infraero, a família de Eduardo Santos segue pobre, precisando de uma medalha olímpica para melhorar a casa. E aí? É ou não é de chorar?




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