Contei tempos atrás da tragédia na família de Regi, em Codó, no Maranhão.
Hoje vou falar das aventuras da família de Edna -- a valente paraibana que faz faxinas lá em casa semanalmente.
Edna é jovem, tem menos de 40 anos. Mora com o marido, sete filhos, três netos e mais quatro sobrinhos numa cidade pobre nos arredores de Brasília.
O filho caçula é surdo e mudo. As duas mais velhas foram mães solteiras ainda na adolescência, da qual ainda não saíram. São muitas bocas para comer e pouco dinheiro para comprar comida. Reis, o marido, é serralheiro. Mas está desempregado há anos.
Edna vez por outra tem notícias de uma sobrinha querida. Oito anos atrás, essa menina, hoje com 28 anos, aventurou-se além mar. Aportou na Itália, num lugarejo chamado Lastra a Signa, cidadezinha da Toscana.
Como a tia em Brasília, a Sobrinha fazia faxina em casa de família. Nos fins de semana, ganhava folga e procurava diversão nas boates da região.
Numa noite, conheceu Tomas, um italiano quatro anos mais velho, empregado de uma empresa de limpeza de fossas. Namorou-o. Algumas semanas depois, criou coragem e propôs casamento a Tomas. Não para valer. Só para garantir a cidadania e o visto permanente no país. Sobrinha estava disposta a pagar pelo favor. Tomas aceitou, mas impôs uma única condição: que ela não pagasse nada, mas fosse morar com ele.
Sobrinha foi. Tomas (pronuncia-se com o acento anglicano Tômas, não com o latino Tomás, sei lá por que) caiu-lhe aos pés. Revelou-se um marido afetuoso, submisso até. Alugaram uma boa casa. Com o visto permanente, a moça parou com as faxinas. Conseguiu emprego de costureira numa pequena confecção contratada da Gucci para fazer o acabamento das bolsas caríssimas vendidas em toda a Europa. Pagavam-lhe 1,4 mil euros por mês. Vida segura, próspera, feliz.
Em maio do ano passado, Edna cansou das dificuldades no Brasil. -- Vou para a Itália. Vou para a casa da Sobrinha, disse a Reis. -- Eu vou contigo!, apressou-se o homem. Sobrinha mandou o dinheiro das passagens. Lá se foram eles, deixando onze jovens e três bebês entregues à sorte e à fome na velha e pobre casa nos arredores de Brasília.
A Europa revelou-se um eldourado para Edna. Sobrinha arranjou-lhe faxinas, quatro por semana. As patroas pagavam-lhe de dez a quinze euros por hora. Cada faxina durava no máximo três horas, o que lhe assegurava 45 euros diários em dia de serviço. O trabalho, pois, rendia a Edna a pequena fortuna quinzenal de 360 euros. Mais ou menos R$ 2 mil mensais, quantia que jamais ganhara no Brasil num único mês em toda a sua vida.
Havia ainda a tecnologia. -- Acredita que lá não se joga água em nada para limpar?, ensina ela. -- É só produtos e papel. Joga o produto, limpa com papel. As casas só têm ralo no lugar do chuveiro, que é pra descer a água do banho.
Edna estava particularmente impressionada com a qualidade de vida dos europeus. Achava estranho eles só inicirarem a jornada depois das 9h. E voltarem para casa por volta das 17h. -- Ainda tem esses cochilos que o povo do comércio dá no meio da tarde, estranhava, desacostumada com a famosa siesta ibérica em plena Toscana. -- Eles têm muito tempo para lazer, para curtir. Aquele povo não trabalha!, rispa ela.
Acha tudo muito barato. Reis viu uma lixadeira por cento e poucos euros. Admirou-se. No Brasil, uma dessas não sai por menos de R$ 400. Edna comprou-lhe a ferramenta de presente.
A vida ia de vento em popa para Edna. Sobrinha pagara-lhe um documento que permitia recolher impostos, uma espécie de CPF. Por ter uma parente legal no país, as autoridades da imigração não a perturbavam.
Na segunda semana em Itália, Edna tomou um grande susto. Entrou num ônibus. Lá não há cobrador, como no Brasil. O passageiro retira um ticket em papel na bilheteria e entra no coletivo. Lá dentro, há uma máquina. O ticket deve ser posto na máquina e receber um carimbo, a atestar que a viagem paga por aquele bilhete foi realizada.
A máquina, porém, só funciona com o veículo em movimento, algo que a pobre Edna desconhecia. Ela entrou, passou o ticket na máquina ainda com o ônibus parado e sentou. Na estação seguinte, o fiscal da prefeitura entrou no carro. Passou a inspecionar os tickets passageiro por passageiro. O de Edna não estava carimbado -- lá, imigrantes, sobretudo angolanos, Edna soube depois, costumam viajar sem carimbar o bilhete. Assim, usam o mesmo ticket em mais de um ônibus. O fiscal recolheu-lhe o passaporte, anotou os dados e sapecou-lhe uma multa de cem euros pela malandragem involuntária. Sobrinha pagou a conta.
Na Itália, a vida não sorria para Reis como para Edna. Ele jamais foi afeito aos afazeres domésticos. Como não conseguiu mais do que uma dúzia de promessas de emprego, passava a maior parte do tempo em casa. Tomas, Sobrinha e Edna saíam para trabalhar. Voltavam e encontravam o pobre homem, em meio à bagunça que ele mesmo produzira durante as horas de desalento. Nem um prato lavado, nem uma sala varrida. Vergonha. Vergonha e constrangimento.
Reis ouvia de todos a quem se propunha trabalhar a mesma ladainha. Haverá trabalho, mas não agora. Estamos no meio de uma crise.
Crise esta que entrou naquela casa por dois diferentes caminhos. Um dia, Sobrinha chegou mais desanimada. Contou que a empresa onde trabalhava -- eles chamam de célula da Gucci -- tinha reduzido de 250 para menos de 50 bolsas encomendadas pela marca famosa. Havia, portanto, capacidade ociosa na célula. Algumas funcionárias teriam que parar de trabalhar. Não seriam demitidas, mas também não receberiam salário até que as coisas melhorassem. Incerteza, desânimo. Só não para Tomas. -- O povo pode até parar de comprar bolsa, mas parar de cagar ninguém pára. Tomas tem trabalho garantido, explica Edna.
Na TV, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi apareceu com destaque. Falava apressadamente e dava para notar que era algo imoprtante. Sobrinha traduziu para Edna. A tal crise que impede Reis de trabalhar anda a ceifar empregos por toda a Itália. Micro e pequenas empresas, como a tal célula da Gucci, fecham aos borbotões e diariamente. Italianos de classe média baixa -- sim, os há, e eles competem no mercado de trabalho justamente com os imigrantes -- vêm perdendo ocupação. Há uma crescente pressão social.
-- Eles vão botar o Exército na rua atrás de imigrantes ilegais, avisou Sobrinha, sobrancelhas arqueadas de tensão.
-- Filha da puta, protestou Reis.
-- E agora?, balbuciou Edna.
-- Vamos embora, mulher. Eles vão prender a gente. Vão te estuprar na cadeia. Vamos embora, insistiu o marido.
Edna não queria vir. Achava que tinha uma situação tranquila. Parente com visto permanente, CPF italiano, trabalho honesto em função que nenhum daqueles carcamanos jamais ambicionariam... -- Vai tu, Reis. Vai e eu fico. Mando dinheiro todo mês. Quando a situação melhorar, você volta pra cá.
Deu-se uma grande discussão. Reis não arredou pé. Voltaria ao Brasil, à pobreza e aquele monte de filhos, sobrinhos e netos que não trabalham nem estudam dentro da casa apertada nos arredores de Brasília. Voltaria à fome, ao desemprego. Mas não voltaria sozinho. -- Você vem comigo.
Após três meses na Toscana, Sobrinha providenciou as passagens de volta para o Brasil. Edna e Reis embarcaram. Ele ainda não conseguiu trabalho. Ela voltou a fazer faxinas para algumas antigas clientes. Ganha agora R$ 55 por dia (cerca de 19 euros), em jornadas das 9h até as 18h.
Ao fim de uma dessas jornadas, feita ontem, lá em casa, ela recebeu a pequena quantia combinada e pediu carona até a parada de ônibus. Estava chovendo muito e não dava para andar até lá. Aproveitou meu itinerário e perguntou se não poderia ficar num ponto próximo ao meu trabalho. Assim, economizaria uma passagem. Concordei em trazê-la. No caminho, ela contou da aventura na Toscana.
A carona valeu para nós dois.
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Goiá...
39 minutos atrás




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