Sentiram minha falta hoje, não? Por favor, digam que sim.
Negócio é que, por algum motivo até agora ignorado, meus rins pararam de funcionar ontem (terça) a noite. Fiquei o dia inteiro mal, porém envolvido com reuniões do trabalho. Até que, não aguentando mais, cai doente no hospital.
Febre alta, dores lombares, imensa dificuldade para fazer xixi. Vou explicar melhor. Muita vontade e pouca força lá nas internas. De forma que, mesmo apertadíssimo, conseguia a custo e muita dor urinar somente umas poucas e insuficientes gotinhas.
Hoje em dia, todo cara da classe média, como eu, tem seguro-saúde. Funciona assim: no início de cada mês, eu pago uma quantia, a guisa de contribuição. Ela é descontada direto do meu salário. A empresa em que eu trabalho paga a outra e maior parte da contribuição. E a seguradora vive feliz com isso.
Quando eu adoeço, contudo, vou a um hospital privado e espeto lá a conta. Quando vêm me cobrar, mostro a carteirinha do plano e digo: "vai lá pegar o dinheiro com eles". Ou seja, o negócio é bom para ambos os lados. Se não adoecer, o plano de saúde enche as arcas. Se eu adoecer, não preciso pagar despesas altíssimas.
Pois bem, uma vez no hospital, fiz o cadastro na recepção e fiquei a esperar que me chamassem. Ardia em febre e batia o queixo de frio. Demorou uns 15 minutos, até que um médico muito jovem saiu lá da Emergência e gritou: Ugo Braga! Lá fui eu.
Ele me auscultou, apalpou-me a parte inferior do abdome, fez três mil e quinhentas perguntas, além de uma que eu ouviria a noite inteira: -- E então, Ugo, o que é que você tem?
Doutor, eu estava no trabalho ontem a noite, tive vontade de fazer xixi, corri ao banheiro, cheguei lá não consegui fazer xixi nenhum, saía só umas gotinhas e mesmo assim doendo muito. Hoje de manhã a coisa continuou e piorou. Deu febre e uma dor terrível aqui nas costas. "Vomitaste?", quis saber o petiz de jaleco. Vomitei não, respondi -- assim mesmo, com esse acento pernambucano em que primeiro vem a afirmação seguida do não. É um dos cacoetes de linguagem mais interessantes falados por aqui.
Então façamos o seguinte, emendou o doutorzinho, vou pedir exame de sangue e urina. O quadro parece ser de infecção urinária. -- Não é na próstata?, exagerei. Não, descartou, se fosse prostatite o quadro seria mais grave, você cairia mesmo, teria vomitado. Pedra nos rins?, arrisquei. Pode ser. Os exames vão esclarecer. Aí ele preenche uma tonelada de formulários e me manda para o setor de autorizações -- sim, o hospital não é besta e só faz aquilo que o plano de saúde diz previamente que vai pagar. O plano autoriza e lá me vou para a enfermagem.
-- Olá, senhor Ugo, diz um prestativo enfermeiro. E então, o que é que o senhor tem?
-- Rapaz, eu estava no trabalho, assim, assim e assado etc e tal.
-- Ótimo. Então vamos arranjar um lugar para o senhor. Eu vou colher o sangue e o senhor colhe aqui a urina - e me entrega um frasquinho de plástico.
-- Velho, impossível. Eu não estou conseguindo fazer xixi!
-- Não tem problema, fique com o frasco. O senhor vai tomar soro e vai dar vontade. Aí o senhor colhe. Ok? Ok.
Sou levado para uma sala friíssima, com quatro grandes poltronas de couro castanho. Duas delas estão ocupadas por doentes, duas mulheres. Uma terceira dá assento à mãe de uma das gajas e eu sou acomodado na quarta e última restante. O célere enfermeiro espeta uma agulha na veia do meu antebraço direito. Suga de lá uma bela ampola de sangue. E depois, na mesma agulha, que eles chamam de "acesso", mete uma fina mangueira de mais ou menos metro e meio de comprimento, ao cabo da qual acopla-se um saquinho com 200ml de soro.
Não leva muito tempo até todos os doentes reunidos ali irmanarem-se. A mulher na poltrona à minha frente padece de câncer. Uma senhora de seus 70 anos e bastante cansada. Está, como eu, com um saco de soro ligado no braço direito. Só que no caso dela, não é apenas uma inocente mistura de água e sal a abastecer o corpo veia adentro. Há lá produtos químicos poderosos, que causam náuseas e desconforto.
Entre uma vomitada e outra, ela começa a conversar. -- Menina, essa minha doença é fogo. É tudo caro. Fui comprar uma peruca (a quimioterapia tem muitos efeitos colaterais e ainda mais esse, de fazer cair os cabelos do paciente), sabe quanto? Mil e duzentos! Tem um comprimido que eu tenho que tomar, uma cartela com cinco, R$ 520! E olha que só tem naquelas farmácias que não aceitam cheque pré-datado, cartão de crédito nem nada. Só a vista, em dinheiro.
Um pequeno e constrangedor silêncio tomou conta da sala. Dizer o que, afinal? A mãe da outra doente, acho que querendo desfazer o climão, solta essa: -- É, não se tem mais compaixão... Outro silêncio, só que ainda mais perturbador. A frase dela, em puro português, quer dizer algo como você vai morrer e a indústria farmacêutica ainda tira a tua pele sem dó nem piedade...
Tal como previsto pelo serelepe enfermeiro, uma incrível e inadiável vontade de fazer xixi se apodera de mim. -- Ôpa, agora vai!, comemoro. Entro no banheiro munido do frasquinho, abro o zíper, cato o escondido e encolhido pedaço anatômico de que preciso e... pingam duas ou três gotinhas, com dor lancinante por dentro. -- Caralho!, xingo, para mim mesmo. Mas há esperança. Surge um jato pouco mais forte. E outro. Desprezo os dois, por orientação médica. E vem mais outro e mais outro. Encho o frasquinho, com esforço e muita dor, mas encho o frasquinho. Vitória, vitória, felicidade, amor e ternura. Que delícia de xixi.
Saio do banheiro confiante, com o frasco cheio de urina a mão. Chamem lá o enfermeiro que eu mijei e mijei bem. Vem o simpático profissional. Pega de mim o xixi e, vitorioso, jacta-se: -- Eu não te falei?
Nesse ínterim, troca o plantão. Significa que o primeiro médico com quem conversei, aquele jovenzinho, terminava ali sua jornada de trabalho. E era substituído por outro, no caso, por outra. Uma senhora gorda e patusta como as viúvas de Machado de Assis. Tive a impressão de ter visto um colar de brotoejas a adornar-lhe o pescoço. -- Olá Ugo, tudo bem? E então, o que é que você tem?
-- Doutora, eu estava no trabalho, ontem a noite, tive vontade de fazer xixi etc etc etc.
-- Ah, bom. Passou a febre? (ela perguntou isso ao mesmo tempo em que lia o prontuário, deixado pelo antecessor, porque, logo depois de colher meu sangue, o dedicado enfermeiro aplicou-me uma grande injeção com analgésico, anti-térmico e anti-inflamatório). Sim, passou. Ótimo, vamos esperar o resultado dos exames.
A outra doente da sala não fala nada. Mas a mãe dá o serviço. É uma mulher de 45 anos, cujo marido vive viajando. Por isso, ela é estressadíssima. Desenvolveu uma gastrite nervosa, que lhe roeu as forças até formar uma braba anemia. Como se não bastasse, está com grave quadro de depressão. O soro na veia contém remédios para lhe devolver força ao sangue. Só que, ao contrário de mim, o líquido dói ao penetrar-lhe o corpo, justamente por causa desses tais remédios.
Entra a médica machadiana. -- Ugo, aqui estão teus exames. A taxa de leucócitos está altíssima, o que revela uma infecção grave. Por outro lado, a urina não está contaminada, o que descarta infecção urinária. Como o diagnóstico está impreciso, teremos que fazer uma tomografia do abdome.
-- Tudo bem, doutora, mas me dê licença que esse soro está me dando uma vontade louca de fazer xixi. E lá me vou.
Dali a pouco, chega outro enfermeiro, com uma cadeira de rodas. -- Senhor Ugo, sente-se aqui, por favor, que eu vou levá-lo para fazer a TC. Beleza, vamos a ela.
A bordo da cadeira de rodas, percorro vários corredores do hospital, desço um andar na direção da radiologia. Chegamos. Surge uma outra enfermeira, também simpática e prestativa, jovem e bastante bonita (Stael vai me matar por escrever isso, mas ela estava lá comigo, então...). -- Olá Ugo. E então, o que é que você tem?
-- Olha só, eu estava no trabalho ontem a noite, deu vontade de fazer xixi...
-- Ah, está bom. O senhor já teve câncer?
Gelei. -- Não, nunca. Por quê?
-- Não se preocupe, é que o exame é feito com radiação, só isso. É alérgico a algum medicamento? Tem problema do coração? Toma remédio controlado?
-- Não, não e não.
-- Ótimo. Então vamos lá. A médica suspeita de cálculo renal. Vamos passar o senhor no aparelho e, se não virmos nenhum cálculo, teremos que aplicar contraste e refazer o exame.
-- Êpa, contraste não! Morreu um montão de gente aí por causa desse negócio. Eu que não vou tomar...
-- Fique tranquilo. O que aconteceu naquele caso é que o fabricante errou a composição de um lote do contraste, tornando-o letal para o ser humano. Então, onze pessoas que tomaram contraste daquele lote vieram a óbito.
-- Sim, mas eu não quero vir a óbito. Tenho três filhos para criar, inclusive um bebê de dez meses...
-- Não se preocupe. Não vai acontecer nada. Nosso contraste é feito a base de iodo, um percentual muito baixo de iodo, e, por isso, vai causar no senhor um calor intenso nas veias, no pescoço, nas pernas, mas é normal.
-- Calor intenso? Eu já estava a beira de uma síncope. Sou medroso, não nego. -- Ai, meu Deus do céu... E entramos. Stael ficou lá fora.
Fui orientado a deitar numa maca e levantar os braços. Eu vou ter que abaixar suas calças, por causa do botão de metal, viu Ugo? -- Tudo bem, tudo bem, mas vou logo avisando que eu sou casado e muito bem casado...
A enfermeira bonitinha, então, baixa minhas calças e some por atrás do meu campo de visão. Ouço o barulho da máquina a ligar. E uma gravação: "Respire fundo e prenda". Obedeço. A maca começa a deslizar para cá e para lá. "Respire normalmente".
Vão-se uns cinco minutos. Reaparece a hermosa de branco. -- Olha, não apareceu nenhum cálculo. Vamos ter mesmo que aplicar o contraste. Ela nota que estou tremendo, quase chorando. -- O que foi?
-- Estou com medo.
-- Não precisa ter medo. Você vai sentir aquele calor do qual falei e mais nada. Eu mesma já fiz esse exame e não é nada demais. Vou começar a aplicar agora o contraste, tá bom?
-- Fazer o que, né?
Sinto a partir daí uma sensação muito esquisita. Um líquido quente percorre as grandes veias do meu pescoço. Depois desce pelo tronco, num instante está nas pernas. Minha boca se enche de saliva. -- Vou infartar, penso. De novo, a voz: "Respire fundo e prenda". Obedeço, só que com grande dificuldade. Todo aquele soro injetado na minha veia pedia desesperadamente para sair. Uma vontade louca de fazer xixi.
Quinze minutos depois, surge outra enfermeira, não mais a bonitinha. -- Ok, Ugo, acabou. Pode se levantar, arrumar as calças que vou te levar lá para fora.
-- Querida, se eu não fizer xixi agora, eu vou morrer.
Ela tira o soro da haste que me acompanha desde a primeira hora e entrega na minha mão. -- Primeira porta a direita, logo ali, depois do corredor. Saio apressado da sala, Stael não entende nada. -- O que é que houve, meu amor? -- Mijar, mijar! Depois, mais calmo, volto do banheiro e sento na cadeira de rodas. O mesmo enfermeiro que me trouxe faz o percurso contrário e me deixa naquela poltrona de couro castanho. A paciente da quimioterapia já não estava mais lá. Só a outra, depressiva com a mãe e o marido, que enfim chegou.
Parêntese. O sujeito é super-simpático e muito carinhoso com a mulher. Cobriu-lhe de beijos, carinho e atenção durante o tempo em que ficamos juntos por ali. Fecha parêntese.
O soro continua espetado na minha veia e eu faço xixi a cada cinco minutos. É um processo meio frustrante, um pouco doloroso ainda, mas já bem melhor do que era horas antes.
Chega à enfermaria do lado um pai com o filho em pleno surto narcótico. Ele tomou um chá não sei das quantas e estava delirando hospital adentro. O pai, arrasadíssimo. Chega também uma mulher carregando um bebê a chorar. E como chorou aquele bebê. Depois de algum tempo, ouve-se a pediatra de plantão avisar a plenos pulmões: -- Mãezinha, estamos com problemas em todos os hospitais de Brasília. Só consegui um leito para você no HGO e mesmo assim, só a partir das 23h30. A pobre mãe arqueia os ombros, como se não tivesse forças para lutar contra a situação.
A mesma telúrica médica passa então a procurar um paciente perdido. É um adolescente, que estava, como eu, em observação na enfermaria, com soro e tudo na veia. Sumiu, simplesmente sumiu. -- Cadê ele, cadê ele?, esgarniçava a moça de branco, já acionando os seguranças. -- Achamos, doutora, achamos. Está lá na ala 2, assistindo o jogo do Vasco na recepção.
Muitas horas depois, chega finalmente o resultado da minha tomografia. Rins normais, bexiga normal, canais do sistema urinário normais, tudo normal, nenhum cálculo aparente. Resta-me somente a dor e a dificuldade de fazer xixi, ambos já bem melhores do que foram no início.
-- Olha Stael, vou receitar um antibiótico, você dá pra ele ainda hoje. Não vou internar o Ugo (também não havia um só quarto disponível) com a condição de que amanhã vocês procurem um urologista para investigar essa infecção e na sexta voltem aqui para refazer os exames.
-- Está combinado.
E finalmente sou liberado, quase a meia-noite, sete horas e cinco sacos de soro depois de ter chegado, sem um diagnóstico preciso e ainda padecendo dos sintomas que me levaram aquele lugar. Pelo menos me valeu um post.




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