sexta-feira, 31 de julho de 2009

Sai de mim, Lenine

Desde segunda-feira fui tomado de assalto por duas coisas. 1) culpa por postar pouco; 2) uma música de Lenine. Sim, falo do pernambucano que mora no Rio.


Não sei o nome dela, da canção, digo. Mas tem o seguinte verso -- e é ele que me assombra:

Um homem na areia
como era no início
roçando duas pedras,
uma em cada mão.
Descobre a fagulha
que incendeia o paraíso.
E imaginou que havia
inventado Deus.

Perdão pela antropologia rasa, mas essas palavras me assustam sobremaneira.

Antes da civilização, penso, o homem cultuava o fogo como se fosse ele próprio o divino. Ele o fogo, claro.

Daí um sujeito descalço, sujo e estropiado como no cinema, esfrega uma pedra na outra. Brota do choque a faísca e dela o fogo.

Pronto, o homem crê espantado ter criado Deus.

Num primeiro momento, deve ter duvidado. Depois, decerto temeu. Aí, deu vazão à natureza egoísta do ser humano. Provavelmente tentou dominar outros a partir de seu "poder" de criador de Deus.

Até que alguém raciocinou, pegou duas pedras iguais, roçou-as do mesmo jeito e, fiat lux, criou deus também.

Num primeiro momento, deve ter duvidado, temido e se espantado. Para logo em seguida tentar dominar outros, formar um grupo rival e então afrontar o primeiro.

Até que um terceiro bateu as pedrinhas e todos descobriram que o fogo, na verdade, não é deus coisa nenhuma.

Se alguém estiver aí a se perguntar por que cargas d'água eu disse me sentir assombrado pelos versos do artista, eu respondo prontamente: e se nós, do ponto de vista da história, estivermos naquele ponto imediatamente anterior ao primeiro cara?

Acreditamos num divino etéreo e inexplicável, como o fogo no tempo primitivo, por que não somos capazes de entender o sentido da vida (e, consequentemente, da morte)?

Pior, se descobrirmos qual é esse sentido e deus, tal qual o concebemos, de fato não existir? Ou pelo menos perder seu caráter divino, como o fogo perdeu quando o homem percebeu não ter criado deus?

Sem Deus, e isso está bem claro desde Dostoiésvsky, tudo é permitido. E tal mundo, me convenço, não valerá a pena...

13 comentários:

Felipe Liberal disse...

O melhor texto seu que eu já li.

Geralmente são as teorias, certezas e materialismos que fazem o mundo andar, a discussão queimar e o planeta girar. Mas eis o único mistério que move o mundo. Deus move o mundo, a partir do momento que ele é uma dúvida.

Tulio disse...

Ugo,
A música chama-se: Mais além (Lenine, Bráulio Tavares, Lula Queiroga e Ivan Santos).
Complementando a letra:"...e imaginou que havia inventado Deus. É mais, é mais, é mais, é mais além"
"Pior e se descobrirmos qual é esse sentido,...e deus não existir?", e se o desinventarmos? o leitor do futuro deve estar pensando: "é mais, é mais, é mais, é mais, é mais, é mais, é muito mais além.

Michelle disse...

Ugo..que texto maravilhoso! Adoro Lenine!!

bruno disse...

lenine é o cara!

Fábio Lucas disse...

Se sem Deus tudo é permitido, com Deus, tudo é proibido... rs. Haverá sempre um fruto, um fogo, um pecado, uma culpa, um medo, um terror, um sentimento vago de que essa existência do pai eterno, supremo, condescendente, juiz e vítima (dos nossos erros!) é a crença que "nos faz vivos". O sentido da vida está em Deus??? Aponte. Impossível, pois o absoluto, por definição, não se define. Por isso Deus criou o homem para venerá-lo, os profetas para condenar os homens, e o mundo para calar os profetas.

Fábio Lucas disse...

Hipótese extrema que não faz diferença, a não ser por aquilo que nega... Algumas leituras interessantes para não deixar o terror vencer a inteligência, raiz da sensibilidade: O futuro de uma ilusão (Freud); O espírito do ateísmo (Comte-Sponville); Carta a uma nação cristã (Sam Harris); Tratado de ateologia (Michel Onfray); Deus, um delírio (Dawkins); Em que crêem os que não crêem (Umberto Eco).
E olha que esse crente quase panha dentro de uma igreja, não foi? Mas vá lá: Deus areligioso, ou não dogmático... aceitável, até que chega a hora do medo, em que a batina mais próxima terá sua serventia. Por isso que o papa vai lançar disco...

Fábio Lucas disse...

André Comte-Sponville:
"O espírito não pertence a ninguém. A liberdade também não."
"Buda, Lao-Tsé ou Confúncio não são deuses, nem invocam nenhuma divindade, nenhuma revelação, nenhum Criador pessoal ou transcendente. São apenas homens livres, ou libertados: são apenas sábios ou mestres espirituais."
..."A necessidade de crer tende a preponderar sobre o desejo de liberdade." ... "Do nada, pensando-o estritamente, não há por definição nada a temer" ... "Eu ficaria zangado comigo mesmo se levasse a perder a fé quem dela necessita ou, simplesmente, quem vive melhor graças a ela." ... "O ateísmo não é nem um dever nem uma necessidade. A religião também não." ... "A humanidade, a liberdade ou a justiça não são entidades sobrenaturais. Por isso um ateu pode respeitá-las - e até se sacrificar por elas - da mesma maneira que um crente. Um ideal não é um deus. Uma moral não faz uma religião."

Fábio Lucas disse...

"Sinceramente, será que você precisa acreditar em Deus para pensar que a sinceridade é melhor do que a mentira, que a coragem é melhor do que a covardia, que a generosidade é melhor do que o egoísmo, que a doçura e a compaixão são melhores do que a violência ou a crueldade, que a justiça é melhor do que a injustiça, que o amor é melhor que o ódio? Claro que não! Se você crê em Deus, você reconhece em Deus esses valores, ou Deus neles. (...) Só por não crer mais em Deus, alguém tem de se tornar um covarde, um hipócrita, um canalha? (...) Perder a fé não muda em nada o conhecimento. Não muda em nada, tampouco, a moral."

Fábio Lucas disse...

"O fato de que uma viagem tem de ter fim é motivo para não realizá-la ou não aproveitá-la?" (A vida é essa viagem, curtíssima, mas até as estrelas explodem e o universo, no final, será frio e inóspito - pelo menos este universo)

"O que constitui o valor de uma vida humana não é o fato de acreditar ou não em Deus ou numa vida após a morte. (...) O que constitui o valor de uma vida humana não é a fé, não é a esperança, é a quantidade de amor, de compaixão e de justiça de que somos capazes."

"Se Jesus não houvesse ressuscitado, porventura isso daria razão aos seus carrascos? (...) Não esperemos ser salvos para ser humanos."

Fábio Lucas disse...

Ah! Não sei se está claro desde Dostoiévski, mas concordo neste ponto com o teísta Liberal - sem dúvida (ou por causa dela...) o melhor post do .2009.!

Felipe Liberal disse...

Bela contribuição Fábio. Excelente.

Mas tô mais pra agnóstico que para teísta.

Fábio Lucas disse...

Valeu, Felipe! E perdão!!
Deus move o mundo, como vc diz, por ser não apenas uma dúvida, mas um problema. No livro novo, de notas para um blog, saramago toca na questão: Deus é um problema, na medida em que muito se faz em seu nome... e silenciar sobre esse problema é deixar que ele se avolume.

Felipe Liberal disse...

Deus é um problema justamente por ser uma dúvida. Os conflitos são resultados da "não definição" de Deus em uma escala global. Concordo plenamente com Saramago.

Quando digo que Deus é uma dúvida que move o mundo, não digo se pra pior ou pra melhor, mas move.