terça-feira, 8 de setembro de 2009

Heróis Verdadeiros

Por Vitor Araújo


A humanidade precisa de Heróis. Sempre precisou.


Filhos de Deuses com mortais. Pessoas capazes de superar problemáticas de proporções himalaicas com habilidades supra-normais adquiridas em situações semi-impossíveis.


Às vezes mártires, às vezes não.


Às vezes movidos por vingança, às vezes por amor, às vezes por patriotismo, militarismo, radicalismo ou revolução; evolução, reparação, necessidade, sobriedade ou dignidade; idade, verdade, lirismo, purismo, religião e poder, política ou utopia, família e honra, por um sonho, por um filho, com gatilho, braço ou olho, por olho.


Fortes, sempre fortes. A força é uma qualidade intrínseca do herói.


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Força:
(ô) sf (lat fortia) Robustez, vigor muscular; Violência; Esforço, intensidade, veemência; Necessidade, obrigação;Autoridade, influência, poder; Impulso, incitamento.

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Naturalmente, o nascer da literatura, histórica e romantica, imortalizou à nossa necessidade mitológica de termos heróis.


Bíblia. A Ilíada e A Odisséia. Ulysses, Aquiles. Jesus. Heróis, e mais heróis.


No começo do século XX, bem no comecinho, David Griffith e outros cineastas implantaram a ficção no cinema, até então arte de documentaristas, e isso potencializou ainda mais a figura do Herói no imaginário popular.


Carlitos, Ben Hur, Schindler. Lucky Skywalker. Heróis e mais heróis.


Porém, na atual década, a indústria Hollywoodiana tem bombardeado o público com filmes de pura infantilidade aventurística, transformando-se numa fábrica de super-heróis, super-poderes, super-efeitos especiais, super-produções, super-idiotices. Besteira. Alienação.


X-Men, Homem-Aranha, Wolverine, Hulk, Mulher Gato, Hell Boy, Demolidor, Quarteto não-sei-o-que, Liga de num-sei-o-que-lá, Super-Homem vol.30, Rambo Terceira Idade, Indiana Jones Terceira Idade com ETs, Rocky Terceira Idade com briga de rua, Trigésimo Oitavo 007, O retorno pós retorno do retorno do Exterminador do Futuro, etc, etc, etc... Até Hancock, que para mim era um Herói do jazz, é na verdade um Will Smith super-herói alcoólatra de meia tigela.


Política da Pipoca e Circo. Lixo cinematográfico. Personagens vazios, heróis forçados, problemáticas roteirísticas detestáveis, sempre se passando em NY - centro do mundo, ou só o que importa no mundo, ou capital do mundo, ou O mundo, ou simplesmente Mundo. Mudo. É assim que fico quando vejo esses enredos pífios transformados em lucros astronômicos. É assim que fico ao observar que temos deixado de assistir os bons Heróis fictícios e temos esquecido os bons Heróis de verdade.


Não reparem minha revolta. É que, nesse ponto, sou fundamentalista.


Cinema, pra mim, é arte. Entretenimento é o caralho! Já temos canais fúteis de sobra em nossas TVs.


E viva à força física. Viva aos bíceps redondos, trapézios gigantes, abdomens definidos, pernas grossas, peitorais estufados, viva aos anabolizantes, às academias, aos suplementos alimentares, aos personal trainers, à esteira e à bicicleta. Viva aos regimes, dietas, Coca-Colas Zero, barras de cereais e todas as não-comidas interrelacionadas. Viva ao padrão estético do galã norte-americano. Morte aos que não o seguirem. Envergonhem-se gordinhos, espinhentos, carecas e grisalhos. Heróis são bonitos, Losers são feios. Viva aos músculos! Morte ao cérebro!


Não reparem minha revolta. É que, nesse ponto, sou fundamentalista.


Saúde, pra mim, é ler Bandeira ouvindo Louis Arsmtrong. Músculo é o caralho! Quando vejo um saradinho saindo da academia com sua toalhinha no ombro, já imagino que gosta de micareta e tem o pau pequeno.


Bom, preconceitos pessoais à parte, um dos grandes heróis da história, Karl Marx, definiu Força como A Parteira de toda velha sociedade em trabalho de parto de uma Nova.


Forte, senhoras e senhores, não é quem dá o murro mais potente.


Forte, senhoras e senhores, não é quem levanta mais peso.


Forte, é quem consegue mudar a visão da sociedade sobre o mundo a sua volta.


Forte é quem consegue, sem um dedo mover, mudar a visão de um indivíduo sobre si mesmo.


Forte, é quem consegue fazer o outro se sentir forte também.


A maior liga de super-heróis do cinema, e da vida, chama-se Buena Vista Social Club.


Compay Segundo, com seu charuto imponente, que fuma com o ar masculino e pontual desde os 5 anos, e seus refrões fortes e exclamativos. Sua voz grave, vacilante e interrogativa, e uma sobriedade e secura das feições, que contrasta com sua simpatia, que contrasta com sua rigidez e elegância, que contrasta com sua boemia, ou não.


Ibrahim Ferrer e seu sorriso afável, seus traços carinhosos e uma doçura extrema na voz e na interpretação. Suas duas gardênias, seu romantismo, sua crença e simplicidade, sua lágrima, que escorre pelo rosto com a mesma graça com que seu tímido vibrato vai delineando as melodias em tom menor. Brilho nos olhos irredutíveis, como se fosse chorar a qualquer momento, ou como se, eternamente, tivesse o olhar de um amor à primeira vista.


Omara Portuondo e sua feminilidade. O Ser Mulher, o Interpretar. O cênico, o lírico, o emocional. O ser atriz e o ser cantora. Notas longas, emoção à flor da nota, e a nota à emoção da flor.


Ruben Gonzáles, meu herói pessoal. O velhinho que eu queria que fosse meu avô, meu pianista super-herói, com sua inocência perene, sua indelével paz de espírito, sua despreocupação com tudo, seu esquecimento do mundo ao entrar no universo de seu piano alegre, e firme. Incisivo e brincalhão. Técnico e livre. Mãos que respondem a uma agilidade mental a qual o resto do corpo não mais obedece.


Eliades Ochoa e seu El Carretero fervoroso, Barbarito Torres e seu alaúde violento, Amadito "Tito" Valdés e sua unicidade rítmica nos timbales,Pio Levya e sua presença maiúscula.


Saídos de Cuba e usando, sim, a força, aquela força de Marx, para fazerem norte-americanos deixarem todos os seus orgulhos capitalistas e pseudo-patrióticos guardados na gaveta, e lotarem o teatro, para verem os verdadeiros Heróis desse mundo. Heróis de carne e osso, Heróis que choram ao se emocionar. Heróis que nem sabem que são Heróis. Heróis que, através da música, furam um embargo econômico espúrio e anti-democrático, furam a máquina econômico-social que de social não tem nada, pois impede o desenvolvimento humano, impede o livre andar do Ser, do Indivíduo, em nome de um funcionalismo monetário estúpido, que esquece que o Homem veio antes do Dinheiro, e que quando a gente morre, a conta bancária não continua no paraíso, pois o paraíso pós-morte não é fiscal.

Porra, parecemos antigos egípcios que se enterravam com seus bens? Porra de bens, porra de grana, porra de especulação da bolsa! Tem gente sofrendo, caralho, será que ninguém vê?


Não reparem minha revolta. É que nesse ponto, sou fundamentalista.


Riqueza, pra mim, é poder aplaudir de pé meus Heróis, vivos ou mortos, e poder me emocionar com eles. Riqueza, pra mim, é poder se alimentar da única verdade absoluta que existe no mundo: a arte. Riqueza, pra mim, é o poder de cura que a música tem. Das mazelas do corpo, da alma, e do mundo.


Vida longa a Wim Wenders e ao bom e velho cinema.


Vida longa a Ry Conner e ao bom e velho bom gosto.


Vida longa ao Buena Vista Social Club.


Pois esse mundo ainda é uma merda.


Mas ainda temos verdadeiros Heróis para plantar a felicidade. E regá-la.

7 comentários:

Michelle disse...

Vitoor!! Adorei o texto!! Parabéns! ;))

Ugo Braga disse...

A parteira da história, para Marx, é a violência.

Mas vá lá, entendi o que ele quis dizer.

Denis P. disse...

Vitor, que texto do c...!! Parabéns pelo texto e pelas inúmeras informações que nos trouxe sobre o cinema.

Tulio disse...

As traduções de "O Capital" tiveram suas controvérsias com implicações políticas e filosóficas. Alguns autores tratam como força, outros como violência, e outros como uma sinonímia. Mas não vejo o que isso tenha relevância no texto de Vitor. A citação de Vitor é muito apropriada, e a "força" do texto suplanta essa questão menor.
Não é pra se entender, é para se sentir e resgatar o "herói" que exite em nós.
Parabéns Vitor vc também é um herói, assim como todos que vc citou, inclusive Karl Marx.

Thiago Freitas disse...

Muito bom!! Parabéns!

Spiderman disse...

Vitor..excelente o texto!! Você é conterrâneo do Liberal, vocês se conhecem??

carlos disse...

Você é muito forte meu irmao, você foi parte essencial para eu mudar a visão que eu tinha sobre mim mesmo! vivendo nos estados unidos agora posso confirmar tudo isso que você falou sobre ter musculos e ser definido é o heroi e quem foge desse padrão é um looser. Como sempre você muito bem no que resolve fazer, estarei sempre do seu lado, obrigado e Te amo!


ps: Tulio queria muito que essa mensagem chegasse a vitor, abraço.