Por Fábio Lucas Uma sai impune, outro descobre um grande segredo. Uns mudam da água pro vinho, outros não têm remendo. A coragem que sempre faltou move montanhas e muda destinos emperrados. E os triângulos e quadrados amorosos se desfazem, cedendo a relações cristalinas e potentes feitas para a eternidade – já que depois do fim, ela é que vem. Toda novela é a mesma história. É como se os personagens fizessem rodízio, e não os atores e atrizes que se repetem nas caracterizações, encarnando tipos tão peculiares que colam à imagem pública de cada ano por anos a fio, às vezes até que a morte os encontre na “vida real”. Trejeitos e entonações de voz mais do que reconhecíveis, aquele sotaque caipira ou estrangeiro padrão, textos que apelam à memória em situações sutilmente diversas – o impressionante é que o espectador não se sinta engabelado. Deve dar até certo alívio rever a mesma novela em cenários exóticos, achar a Índia igualzinha ao Leblon (a propósito, o Brasil adora se ver no espelho da Globo como pura paisagem carioca: a quantidade de ângulos em que já se mostraram o Corcovado, o Pão de Açúcar e o calçadão de Ipanema é impressionante. Pena que ao invés de vir a Boa Viagem, ou à feira de Caruaru, seja preferível levar o elenco ao Marrocos ou ao Taj Mahal). Mas o auto-engano do público também faz parte da trama, na confirmação das suspeitas, na revelação das surpresas mais que esperadas, quando chega a noite fatídica da eterna despedida: a noite do último capítulo. A evidência ilusória é de tal monta que suscita a pergunta – a novela infantiliza o noveleiro, ou o noveleiro infantiliza a novela? Tipos adorados pelas crianças fazem sucesso entre os adultos em pleno horário nobre. Inclusive quando o humor exibido não é para crianças. Esses personagens terminam provocando o acesso dos adolescentes ao universo de relacionamentos confusos e de moral relativa da novela das 8, cuja prévia já se tem, a bem da verdade, nas historinhas escolares das 5 da tarde. Na novela, tudo é permitido, como nas fantasias infantis – a diferença é que tudo é permitido para adultos, que se sentem crianças espiando os mais velhos na janela sem censura da TV. Sabe-se que hoje em dia as pesquisas de mercado guiam a mão do roteirista. Mesmo assim, é curioso constatar o grau de semelhança entre os desfechos das nossas novelas, que tendem para a inocência dos culpados, e a redenção dos inocentes, como se estes fosses culpados, antes de tudo, pela inocência, arrastada durante meses como um vício. A novela não acaba, contudo, no último capítulo. A cidade cenográfica nunca desaba em ruínas. A novela não acaba porque a audiência quer continuar vendo, por exemplo, as intrigas e traições, deliciar-se com o escárnio dos que se safam. O código de ética mais atraente é aquele dos menos éticos, daí a torcida distorcida pelos vilões. Diante do falso moralismo do lado de fora, nas novelas vigora uma espécie de imoralidade natural, onde a escolha não se põe, as regras não se aplicam, e o país real se descobre, no riso cínico dos que escapam, tristemente igual ao país da ficção.


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Goiá...
40 minutos atrás




5 comentários:
Bellísima Análise Fábio. Quero apenas destacar o papel do noveleiro na novela. A última em questão, é de Glória Perez, cuja filha foi assassinada e os assassinos já estão na rua. Me parece que o cinismo ético e a impunidade de suas personagens espelham a revolta da noveleira, que tentando ser mais "real" que a própria realidade, acha que suscitará reflexão aos espectadores (ledo engano a meu ver, embora me solidarize com a sua dor). A próxima de Manoel Carlos, onde com certeza a música será uma Bossa Nova (visando o externo), mostrará o Rio Janeiro como Brasil, mais Brasil que o próprio Brasil.
Gostei do texto! Ugo, onde está o Liberal?
Denis P., o Liberal estava enrolado com umas palestras.
Mas já se desvencilhou e disse que vai mandar um novo texto ainda nesta semana.
Fabio, eu acho que vc é noveleiro!
oi, passei pra conhecer seu blog, e desejar boa tarde
bjsss
aguardo sua visita :)
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