domingo, 19 de dezembro de 2010

Capítulo 1


Começando pelo final

-- Se eu puxar esse gatilho, mato meu filho. Não, não, um pai não mata o próprio filho. Como é que cheguei a esse ponto, meus Deus? Não, não, não posso rogar a Deus numa situação dessas. O que é que eu faço, o que é que eu faço? 

Então o homem, de cabelos brancos e barba mal feita, 65 anos, suspira profundamente e enxuga a testa com as costas da mão esquerda. Assim, consegue controlar um naco do pavor que lhe sobe das entranhas. O suor é frio como o cano do revólver em sua mão, um .38 desses com cano curto. Dá pra ver que jamais foi usado. Só tem três balas no tambor. Ele não tem ideia de onde teriam ido parar as outras três. -- Mas três são suficientes, pensa.

 Está sentado no chão da garagem, com uma das pernas flexionadas e a outra esticada. Há na rua o silêncio típico das tragédias. Não se ouvem vizinhos, nem pedintes, ou carros. O relógio marca quatro da tarde e até o vendedor de picolé, que passa ali diariamente àquela hora berrando “olha o sorvete! olha o sorvete!” parece ter se mancomunado com o cenário.

Deitado, inerte e distante não mais do que um palmo, jaz desmaiado um rapaz de 23 anos. Está bem vestido, mas a barba há meses por fazer e o cabelo desgrenhado funcionam como nota dissonante. Da mão esquerda sem ação mas ainda pulsante, paira a fumaça de um cigarro de marca, Carlton. Na direita, o polegar e o indicador seguram sem muita firmeza um isqueiro azul escuro desses que se compra por um trocado em qualquer bodega.

Mesmo trêmula, a mão que segura o revólver de repente recebe o comando e, usando do mínimo ao indicador, agarra com força o cabo de madeira. Ao mesmo tempo, o polegar se move para, num movimento trôpego, puxar o gatilho até que ele seja travado no mecanismo de disparo. 

Tudo o que separa a modorra de uma tarde de sexta-feira da tragédia é o átimo de aflição em que o cérebro daquele homem vai se deparar em alguns instantes. Alguém mais civilizado certamente refletiria sobre a vida e a morte, o patético humano e a existência do divino, a civilização, o futuro, as ações e seus desdobramentos. 

Mas não ele. Não ali, nem com aquele garoto à sua frente. Tudo o que lhe vinha à mente era “foda-se, foda-se esse filho da puta que me atormenta o coração, foda-se aquela louca da minha mulher, foda-se tudo”. Babava e chorada ao mesmo tempo. As lágrimas se misturavam à saliva e desabavam, elásticas e melancólicas, do queixo quadrado, mal encaixado pela falta da dentadura, que caíra pouco antes no chão. 

O coração acelera. O homem respira fundo e agora segura o revólver com as duas mãos. O tremor lhe balança o corpo inteiro. Sente principalmente atrás da cabeça, na nuca, e descendo pela coluna até o quadril. Sua mente funciona em ritmo frenético. Já não raciocina. 

Veem-lhe imagens da mãe chorando no velório, da primeira menina que beijou, de uma pelada no campo de barro quando criança. Elas se sucedem aos borbotões, como um filme em modo acelerado, sem som algum. Até que o tormento irrompe pelo corpo, atravessa os braços, se concentra nos punhos e o indicador da mão direita recebe a ordem fatal: inicia a pressão sobre o gatilho que vai estourar os miolos do pobre diabo deitado ali à frente. 

Nesse exato instante, a porta da garagem abre atrás do homem. Um jovem de 24 anos, envergando um terno bem cortado, pasta de couro segura na mão esquerda, cabelo bem penteado e barba impecável, entra apressado. Depara-se com o cenário e, estatelado, exclama: Pai!?

2 comentários:

Mari Ceratti disse...

Alucinação total!

tulio.montenegro disse...

Carai...cadê o resto??? Capítulo 2 logo, senão também saio atirando e em sobrinho.