quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O ovo da serpente dentro de um misto quente

Tenho um amigo aqui em Brasília, jornalista respeitável e renomado, que empreende cruzada contra as concessões nos aeroportos. Chama-se Leandro Fortes, trabalha na revista Carta Capital e expôs intenções e motivos no Facebook. Quer cancelar as atuais e trocá-las por outras, mais, segundo diz, honestas.


Preenche o argumento com o exemplo do misto quente. Embora não seja exatamente uma iguaria, a guloseima custa até R$ 5 em lanchonetes instaladas nas casas aeronáuticas brasileiras. É um roubo, um assalto, uma patifaria. Como funcionam em espaço público -- dado que os saguões pertencem à Infraero, uma estatal monopolista --, esses pequenos negócios devem ser varridos para baixo do tapete e substituídos por outros que cobrem o devido e justo preço pelo misto quente. 


Li o Leandro, gosto dele, mas aquilo ali me soou estranho. Ele termina o escrito mais ou menos assim: O Lula deu acesso às classes C e D às viagens de avião, agora a Dilma tem que providenciar a marmita. 


Lembro de um antigamente em que o PT -- sim, Leandro o é, mesmo que não saiba ou admita -- questionava a organização social em que se media a importância das pessoas pela quantidade e qualidade dos bens de consumo que ela era capaz de adquirir. 


Agora, anos depois, eles se jactam do presidente por ele ter feito com que mais pessoas possam adquirir mais e melhores bens de consumo, inclusive as viagens de avião. Ótimo, eu, que no espectro ideológico sou o contrário do petista, também conto pontos favoráveis ao Lula por isso. 


O ponto é bem outro. Se concentra na forma como exercer o poder de governo e no respeito à liberdade. 


Sim, pois se é assim benquisto que o governo aja sobre as concessões e seus preços, por que não cancelar, estrapolando o argumento, a concessão da TV Globo, que, segundo os petistas, oferece um mau serviço aos brasileiros? Chávez, na Venezuela -- amigo do peito do PT, por sinal --, tentou fazer o mesmo com o maior canal de TV, depois de congelar preços na caneta e atropelar, também na caneta, o direito de propriedade sobre empresas em vários ramos de negócios. 


Tudo bem, o PT não é Chávez, longe disso, o que também concordo. Mas, pensando por outro lado, tenho uma amiga oriunda da classe D, atualmente no que se chama de C, que, graças ao Lula, viajou aos EUA, Miami, afim de comprar uns produtos. Soube que lá é mais barato, juntou uma grana, descolou o visto e embarcou. Trouxe umas camisas, relógios e perfumes pra vender. A mim, se declarou "besta" de como as coisas são baratas lá. Falava, claro, de bens de consumo como vestes, eletrodomésticos e eletrônicos, cosméticos. 


Bom, os EUA não são a China. A mão de obra por lá é cara, não tem como a gente dizer que o produto é barato por que foi montado por uma criança a salário de dólar/mês. O que diabo terão feito os americanos, então? Assim como Leandro exemplificou o misto quente, recorro ao iPad, o aparelho de alta tecnologia, cujo preço no Brasil é o maior do mundo. 


A razão entre o abismo no preço de varejo do aparelho dos EUA para o Brasil são os impostos. Que cá, ao contrário de lá, financiam o sistema universal de saúde, o sistema público de educação, as empresas estatais, o governo gigantesco e crescente, com seus funcionários caros e ineficientes. 


Agora, esqueça, por favor, o iPad. Tome os outros itens. Roupas, eletromésticos, comida e bebida, enfim, itens que as pessoas comuns realmente precisam pra viver. Aqui eles são mais caros que lá. Paga-se mais para levar o dia-dia com dignidade num país emergente do que num país rico. E não é por causa da ganância dos empreendedores privados, meus amigos, é por causa dos impostos. 


Ou, dito da maneira mais correta do ponto de vista da política fiscal, por causa dos gastos do governo. Reduza-os e teremos, enfim, o paraíso.

0 comentários: