Bom, à guisa de contribuição para o melhor entendimento do cenário, republico aqui uma coluna que escrevi no Correio Braziliense três anos atrás. De certa forma, ela explica um pouco essa matéria da Veja desta semana sobre as obras do Ministério dos Transportes, o PR, o pito da presidente Dilma e tal.
Nas Entrelinhas, Correio Braziliense - 09/01/2008
As veias abertas do mensalão
O perfil do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu publicado na edição da revista Piauí mandada às bancas no último fim de semana é um manancial, um mangue. Dele, pode-se tirar quase tudo. Pela primeira vez, por exemplo, um petista graúdo veio à público e não só parou de negar, mas admitiu, confirmou e ainda teceu explicações sobre o mensalão. Às vezes, metendo-se a mão na lama, sai caranguejo grande.
Ao defender-se da acusação de ser chefe do esquema, Dirceu sempre argumentou que tal hipótese era nula, por impossível. Se o esquema não existia, como poderia ele ser chefe? Agora, a coisa mudou. E não sou eu quem diz. Para tanto, reproduzo as aspas do personagem em questão.
“Esse pessoal (referia-se às alas mais à esquerda do PT) é assim… Chegava para o Delúbio e falava: `Delúbio, preciso de um milhão´. Como é que alguém vai arrumar esse dinheiro assim, de uma hora para outra? O pobre do Delúbio tinha de ir aos empresários, conseguir doações. Aí, estoura omensalão e esse pessoal vem dizer que o Delúbio era o homem da mala. O que não dizem é que a mala era para eles.”
Bom, há aí uma explicação de gente de dentro sobre o que o mensalão era para o PT. Mas essa é uma perspectiva simples e rasa. A confirmação de Dirceu permite outra, mais profunda, sobre a máquina política brasileira, suas engrenagens e conseqüências.
A firma
Talvez pelo fato de o Brasil ser um país subdesenvolvido, a maior empresa nacional sempre foi o governo. Ainda mais depois que a Constituição de 1988 delegou ao Estado uma imensa gama de serviços públicos universais e gratuitos. Para atender à clientela tão vasta e a preço tão barato, a firma precisa de um cabedal extenso de fornecedores. Tem-se, pois, que o presidente da República administra a organização econômica que mais compra na economia. Toda compra realiza um pagamento, todo pagamento tem um recebedor.
A administração do governo, como sabemos, não é puramente gerencial. O chefe a reparte em departamentos. Entrega cada um deles a alguém de sua confiança, a quem chama de ministro, responsável por fazer pagamentos, muitos e bilionários, a fornecedores privados capazes de transformar em ação pública as políticas emanadas da empresa.
Pois bem, o que aconteceu depois da redemocratização? Nenhum grupo político conseguiu chegar ao poder sendo amplamente majoritário. Precisou unir-se a outras forças com o intuito de governar. E precisou entregar a essas forças cada um daqueles departamentos, com seus pagamentos milionários.
Chego a meu ponto: os grupos políticos pós-redemocratização cresceram e sobreviveram corrompendo os pagamentos da maior empresa nacional, justamente aquela cuja multiplicidade de comando e fragilidade de controle, somados à torrente de recursos a transitar continuamente, a tornavam verdadeira fonte inesgotável de financiamento eleitoral.
Nova administração
Tudo mudou em 1º de janeiro de 2003. Incomodados com os pífios resultados do modelo de gestão anterior, os donos da empresa elegeram um novo grupo de administradores — o PT. Estes, mudaram um pouco o esquema. Assumiram os departamentos. E dominaram todos aqueles pagamentos com que os grupos políticos se sustentavam.
O problema é que o PT, tal qual seus antecessores, também não venceu a eleição de forma amplamente majoritária. E, dado que o Brasil, como de resto todo o mundo civilizado, dividiu o poder em três instâncias autônomas e interdependentes, precisava das outras forças políticas para governar, notadamente no Congresso Nacional. Eis o mensalão. Eram pagamentos, ou doações, como prefere Dirceu, arrecadados fora da máquina pública para irrigar a vida partidária, pagando-lhes despesas e viabilizando sua existência.
O arranjo ruiu quando alguns personagens previram uma catástrofe. Se os pagamentos fossem interrompidos num ano eleitoral, só o PT teria dinheiro em caixa. Elegeria bancadas formidáveis no Congresso e, pela primeira vez, uma força política orgânica estaria em condições de exercer o poder sozinha. Ou, pelo menos, com ampla preponderância sobre as demais. Roberto Jefferson foi uma espécie de profeta desse acontecimento. Por isso, denunciou o esquema.
A julgar pelas reações posteriores, a sociedade brasileira condenou o mensalão. De certa forma, trata-se de uma espécie de declaração de pluripartidarismo. O governo do PT viu-se obrigado a montar a empresa segundo a velha distribuição de departamentos, com seus muitos pagamentos e diversos interesses em jogo.
E, reeleita, preparou um grande e bilionário pacote de obras públicas, a que batizou com pompa de Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).



